Zzzim… e pimba! ou Pneus para aviões

Por: Rubens Cano de Medeiros.I – Hoje, eu sessentão, tinha meus sete aninhos lá por volta de 1954. Tão longínquo no tempo! Eu e meus pais, paulistanos proletários (não obstante a sorte de morar em Vila Mariana) nós, vez por outra, a gente ia passear em casa de parentes, na Vila Santa Isabel. Levando em conta o transporte coletivo daquele tempo, uma São Paulo fabril, a coisa era uma epopeia! À parte a aventura, para mim, moleque, era de cansar. E só de lembrar a memória pede água.

II – Sim, eu gostava dos ônibus e bondes que — também para mim — sempre marcaram presença na paisagem paulistana. E deles gostava também talvez pelo fato de meu pai ser operário da Light, das Oficinas do Cambuci (e por 35 anos, lá). Assim é que todo 15 de novembro — infalível — era aquela festona cívica na Lavapés. Gente de montão, lighteanos e familiares. Muitas crianças. Eu, moleque, me impressionava com a grandiosidade das instalações: eram máquinas operatrizes, guinchos, grandes caminhões pretos FWD, de carregar postes; trilhos e fios, além de alguns bondinhos de serviço — remanescentes dos tempos em que os bondes, pré-CMTC, foram da canadense. Banda de música, que bela! Aí, já não me ocorre (pois narrativa de memória) se da própria Light ou a da CMTC. Ex-lighteanos haverão de sentir saudade, daqueles 15 de novembro.

III – Quão gigantesca aquelas instalações da Light do Cambuci, hein! Na festona cívica, até jogos de malha e de bocha — nas canchas de areia das Oficinas. Eu gostava! Jogos de tradição dentre o operariado de Piratininga. Ao menos, ainda nos anos 50, lembro bem. A malha (de ferro? de alumínio?) — após o curto voo do arremesso — vinha deslizando na areia (zzzim…) qual a cascavel no deserto, para dar o bote na presa! — e pimba! O pino (que era o alvo) se contorcia em inevitáveis cambalhotas, verdadeiro nocaute. Metálico. O pino, coitado, nem tinha como esquivar… Jogadores-operários uniformizados: a camisa até parecia com a de jogadores de futebol, inclusive distintivo. Embora moleque, eu até “brincava” de jogar bocha e malha. Numa cancha (de terra batida) de perto de casa. Malhas e bochas: saíram da paisagem paulistana como as próprias fábricas.

IV – Àquele tempo distante, minha mãe me falava. Que a primeira palavra (completa) que vim a pronunciar — assim que apontei para um — foi “bonde!”. É, pode mesmo ter sido. Certamente a última é que não me será: porquanto os bondes já morreram bem antes de mim… Moleque, “fascinavam-me” as faíscas azuis, de eletricidade. De roldanas das alavancas, nos fios. Embaixo do bonde, faíscas quais flashes, no meio das ferragens, entre os rodeiros. Então é que percebi que eletricidade era azul… E a “capa” de cor escura que revestia por fora o teto dos bondes — e de ônibus também? Vim a saber com o tempo. Era para impermeabilizar. Chamava-se “linóleo”. Utilizada também nos “vagões” de passageiros dos trens. Quem — um adulto — ligaria para tais bobagens? Duvido. Ah! Outra coisinha que agradava ao moleque, daqueles bondes, era o crepitar das rodas, nos desvios e emendas dos trilhos: trec-trec! Que até um solavanquinho propiciava.

V – Pois aquele nosso passeio (primeira etapa), rumo de Vila Santa Isabel, o tal passeio supria minha expectativa de ver tantos ônibus e bondes. Da Vila Mariana até a “Cidade”, era pegar um dos muitos bondes que singravam a Domingos de Morais (desde que não o Lapa e o Asdrúbal do Nascimento) — bondes que iam ancorar no abrigo deles, da João Mendes, uma vez ultrapassada a pequena Praça Carlos Gomes, em cujos baixios brilhava o Cine Joia, não? Muitos lembram: era um tempo — mostram-nos jornais de arquivo — das obras de conclusão da colossal Catedral de granito, eternamente em conclusão. De quando a Praça da Sé — exilados os bondes que lá paravam, anos 20 e 30 — era um grande terminal de ônibus. E de pontos de lotações — grandes automóveis pretos. Sob o olhar impassível do Cine Santa Helena, cinema famoso no qual nunca entrei.

VI – Segunda etapa da maratona-passeio. Um pequeno bate-pernas e eis-nos da João Mendes na Clóvis. Que era o ponto inicial dos bondes que mergulhavam na Rangel. Bem no meio da avenidona, pista exclusiva para eles. Rangel Pestana: quem lhe seria mais larga, à época? A Tiradentes? A então Avenida Anhangabaú? Ipiranga ou Rio Branco? Creio que nenhuma. Pois num canto ali da Clóvis, ao lado da Roberto Simonsen, bondes enfileiravam — que vinham chegando para em breve partir — quase sempre cheios. Ou sempre quase.

VII – Carros abertos — alguns ainda tracionando reboques — e os camarões. Bondes de letreiros, ali mudados para destinos que me intrigavam a mim, moleque. “Manhê! Onde fica a Penha? E Vila Maria? E Alto dessa Vila Maria? E Parque São Jorge? E Rubino de Oliveira? E que Estação do Brás, que é? E Belém?”. Todos os que de lá saíam. “É esse, número 24 – Belém. Que vamos pegar.”. E pegávamos. Bondinho aberto dos dois lados. Truque de quatro rodas — gingavam nos trilhos. E que transpondo o grande largo com a grande igreja, o bondinho subia a Álvaro Ramos (“subia”, pois se até havia ônibus “Alto do Belém”) e fazia o balãozinho já até perto dos sisudos muros do cemitério. Que o guia Levi, de ruas, chamava de “Cemitério do Brás”. Como outros também.

VIII – Belém, onde orgulhosamente São Paulo era muitas fábricas. O subdistrito, nome oficial, Belenzinho. Um diminutivo de quem, na verdade, era superlativo. Absoluto. Celeiro de fábricas daquele coração manufatureiro, a “São Paulo que não pode parar”, ufanavam. Fábricas — algumas das quais vim a conhecer 20 anos depois, trabalhando no SENAI. Que contemporâneos de mim delas não lembrarão? Fábricas que se esparramavam, desde o Catumbi. Melhor: desde o Pari. Não: desde o Brás; Mooca; desde o Cambuci, Ipiranga e Vila Prudente, na verdade. Fotos de jornais — vistas aéreas de São Paulo, da “Cruzeiro do Sul Aerofotogrametria”, diziam os rodapés das páginas — de todo dia 25 de janeiro, estampando a grandiosidade paulistana. Fábricas ao lado de fábricas. Juntinhas. Não acabavam mais. Era o enorme coração industrial de Piratininga!

IX – Belém/Belenzinho: produzia de tudo! Eram as fiações e tecelagens, tinturarias têxteis; metalúrgicas e materiais elétricos, artefatos de plástico; torneias e chuveiros — até as de água quente, para lojas também de Água Branca, Água Fria, Água Funda e Água Rasa, não? Eram gráficas, múltiplas oficinas e intenso comércio. Nos ares do Belém, o delicioso aroma de café torrado! E no chão — do Belenzinho e do Brasil — pneus, que a Goodyear fazia, ali mesmo no Belenzinho. Diziam-me: e até pneus para aviões! Para aviões dos céus brasileiros, aviões americanos quase na totalidade. Eu, cabeça de moleque, imaginava: pneus para aviões, mais difíceis de fazer! Teria sido.

X – Outra mera curiosidade de lembrar — da época e do lugar — é alguma memória do transporte. Que, como memória, fica sujeita a equívocos. E no caso, terceira etapa daquele passeio: Os ônibus da Viação Cometa. Que partiam da Cajuru, próximo ao Largo. Ônibus que íamos tomar — e que eu achava interessante (curioso), da Viação Cometa! É. Como podia — eu me perguntava a mim mesmo, moleque — uma empresa de ônibus “de viagem para Santos”, ela ter também linhas para bairros? Eu estranhava — como se proibido fosse “misturar”. A pintura daqueles Cometa? Igualzinha! O distintivo (quem é que falaria, anos 50, “logomarca”?), idem. Em São Paulo, não tinha outra empresa assim. Só em Santos: o Brasileiro, eterno concorrente. Cometa, do Belém: ônibus azuis e creme, iguaizinhos!

XI – Eram aqueles ônibus urbanos da Cometa, que saíam da Cajuru — para Vila Formosa, Vila Santa Isabel, Vila Diva e Sapopemba — eles eram, sem por nem tirar, idênticos aos que a CMTC usava, na região onde eu morava. A carroceria Grassi era a mesmíssima. Quanto à mecânica, já não lembro se também ACLO ou Volvo. Uns outros ônibus que dali partiam, estes eram incomuns. Que eu lembro, só mesmo a Cometa — e ali. Ônibus de janelas diferentes. De grandes farois e de setas de conversão, à esquerda e à direita, tão grandes que pareciam farois. Parabrisas de duas partes — basculante na parte inferior para arejar o interior do carro. Talvez também para amenizar o calor do motor dianteiro. Eu lembro razoavelmente bem. A saída de emergência — diferente do então comum — era uma porta situada na traseira, depois da última fileira de assentos. Tal qual a dos ônibus escolares americanos. Só vi nos jornais, a CMTC teve alguns.

XII – Vim a saber muito depois. Estes ônibus incomuns eram ingleses — da cabeça aos pés: chassis, mecânica e carroceria. A mecânica era ACLO. Já a carroceria, de certa marca que na Inglaterra fazia até aviões: Saunders-Roe. Fico na dúvida, que jamais tirarei: pode ter sido também de outra compatriota daquela: Metro-Cammel. A mesma marca que eu via nas plaquinhas dos carros elétricos de subúrbio da Central do Brasil, linhas tronco e variante, não? Aqueles trens azuis de dois tons. Uma foto de internet revigorou minhas memória e nostalgia: um daqueles ônibus ingleses da Cometa. Letreiro: Vila Formosa. Saunders-Roe. Que fique assim.

XIII – Ônibus aqueles que, juntamente com os Twin-Coach das linhas Quarta Parada e Água Rasa, roçavam os paralelepípedos da Álvaro Ramos. Vila Formosa e Vila Santa Isabel bifurcando na então estreita Regente Feijó, de chácaras e grandes vazios, de há meio século. De quando — ainda me lembro — o cemitério estava em ampliação, para ter a mesma configuração ainda de hoje.

XIV – Contemporâneos de “molequice” — e que também gostavam dos ônibus paulistanos — é que não devem ter esquecido. De que, 1953/4, a Cometa vai e padroniza toda a frota: os de rua e os de estrada. Até em Campinas e Ribeirão. Quando introduz o novo, possante e rápido coach brasileiro — vanguardeiro à época — o GM ODC. Chassis e motor americanos, carroceria nacional. Montados em São Caetano. De um motorzão diesel traseiro qual rugido de leão! Rugido que acabou por espantar os velhos Grassi e os ingleses “diferentes”. Tal qual nos filmes — de Tarzan, por exemplo, o rugido do leão espantava guepardos e leopardos; zebras, antílopes e gnus; hienas e girafas. Se é que não era tudo coisa combinada, coisa de Hollywood, não? Rugido simpático era mesmo o do leão da Metro Goldwin Meyer, não é mesmo? Além de inofensivo.

XV – Ainda em meados dos anos 60 (a Cometa de ônibus urbanos mudara para vermelho e creme) os coachesODC, rugido já cansado e fumaceiro, vão repousar. No ferro-velho. E a própria Cometa vira “Companhia Auxiliar”. Ônibus novos, Fenemês/Massari, cor verde e creme. Ônibus de cara italiana. Eu já não mais ia à Vila Santa Isabel: minha nostalgia parou nos ODC.

XVI – De maneira análoga e de sorte como por toda a Cidade/Metrópole — principalmente a partir de Faria Lima, senão de Prestes Maia — gigantescas quando não feiosas obras viárias — e foi também o caso da Salim Farah Maluf — rasgaram tão vorazmente o chão paulistano de tal modo que nada lembrasse mais o passado. É o caso daquela interseção, Belém/Água Rasa. Rodassem por ali, hoje, os velhos coaches da Cometa, ficariam perplexos.

XVII – Epílogo. Ainda naqueles anos 50. No céu de Vila Mariana, bem por sobre minha casinha, é rota de pouso no lindo Congonhas. Bimotores DC-3 — por exemplo, os da VASP — reis dos ares ainda à época — prateados, trem de pouso baixado, os aviões refulgem à luz do sol, sol de Vila Mariana. Eu viria a saber bem depois: naquelas aeronaves americanas — veteranas da Segunda Guerra e agora transportando brasileiros em paz — nos motores pulsavam pistões, bronzinas, bielas e mancais feitos pela Metal Leve. De Santo Amaro.

XVIII – Pois as aeronaves, uma vez sobrevoadas minha casa e as chácaras do lugar, suave e elegantemente contornavam, no Ibirapuera, o obelisco de pedras brancas, porosas. As asas de prata como que prestando continência à imorredoura memória dos que morreram em 32 — soldados paulistas que trocaram a vida por conta de um ideal. De Constituição. Chama que nunca apaga. Bandeira de treze listas!

XIX – Isto posto e cruzando Indianópolis — de lindo nome e ainda de ruas de terra — o bimotor da VASP, pouso seguro descendo de um céu azul de brigadeiro, o DC-3 rola no concreto da pista. Pneus nacionais, força de trabalho de operários brasileiros do Belenzinho. De uma São Paulo que de tudo produzia. De pistões para aviação até o reconfortante aroma de café torrado…

XX – À volta do passeio de três etapas, no domingo à noite, cansado, o sono vem devagarinho. Exausto mas contente, o moleque-eu adormece enfim: zzzim… e pimba! Mergulha o sono nos trilhos de bondes e paralelepípedos de ônibus de pontos finais no (dele) coração… Uma São Paulo, da garoa, que há muito passou…