“Oásis ou A placa e as garças”

POR DETRÁS DO GRADIL DE FERRO, desbotando de cinza por conta da intempérie, há uma placa. De ferro, latão ou bronze? Afixada num grande pedestal branco, de cimento. Toda orgulhosa — pois bem conservada — pintada de fundo preto e ostentando uma inscrição. Digamos, em alto relevo: letrinhas maiúsculas pintadas de branco. A placa — Rua Santa Cruz esquina de Ricardo Jafet — atrás do gradil, anuncia aos transeuntes que por lá passam (e aos poucos que lhe pudessem dar alguma atenção): “PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO — AVENIDA ÁGUA FUNDA — INAUGURADA EM 1 DE ABRIL DE 1967 — ADMINISTRAÇÃO FARIA LIMA”. Remonta à época em que mudei, depois de vinte anos, de Vila Mariana para uma então aprazível Vila Gumercindo — só de casinhas térreas e casas de grandes quintais, algumas oficinas e fábricas. Não era a floresta de prédios altos, que parece não terminar de se expandir. De quando o ilustre brigadeiro — um dos prefeitos eméritos — lembro bem, trocou as lâmpadas de filamento das ruas pelas de vapor de mercúrio. Com o tempo, a Avenida Água Funda teria a denominação trocada para duas: Ricardo Jafet e Abraão de Morais. No meio das duas largas pistas, o córrego/riacho que esgueirando-se a partir do Parque do Estado, numa longa reta, e uma vez ultrapassado o Monumento do Ipiranga, vai se dissolver no Tamanduateí. Ou seja, joga seus poluentes naquele. Um canal estreito nalguns trechos — o córrego — de águas rasas mas que, nas enchentes, transborda tal que quase vira um Rio Amazonas. Esforça-se nesse sentido. Águas poluídas, de pouca vida, porém que — incrível! — chega a atrair garças. As quais, em ali pousando, alimentam-se de quê? É de intrigar.

NO DISTANTE 1967, lembro bem de que esse riacho ainda não fluía no atual canal de concreto e pedras, hoje até orlado de árvores. Àquele tempo, o asfalto da “Água Funda” — menos larga e de menor intensidade de tráfego — permitia andar de bicicleta, numa boa.

POIS A TAL PLACA DE INAGURAÇÃO, pelo que parece, está preservada com cuidado e originalidade, exceto quanto ao atual preto-e-branco que cobriu o dourado. E para ter a placa sobrevivido tanto tempo, só pode mesmo ter sido cuidada. Repousa ela, atrás do gradil, no jardim do tão extenso quão bonito conjunto residencial. Que ainda hoje deve se denominar “Conjunto dos Bancários”. É, tal lugar, um oásis. Oásis de vegetação e de estilo arquitetônico das edificações. Opinião (apreciação) de quem nem é arquiteto (eu). Ocupa vasta área entre Santa Cruz, Ricardo Jafet e Embuaçu. Diz o guia de ruas que lá é Vila Afonso Celso — cuja rua homônima, entretanto, é pouco distante dali. Ali é perto do metrô Santos-Imigrantes e da Chácara Klabin — esta, em cujas ruas ainda de terrenos vazios e muitos passarinhos, também era bom pedalar. Região na qual, anos 40 e 50, subsistiu a favela do Vergueiro. Da qual me lembro de quando, no caminho de Santos, nos coaches do Expresso Brasileiro (“via Vergueiro”) a gente partia da Bernardino de Campos esquina com Rua do Paraíso. Final dos anos 50. O ônibus atravessava a favela, pois.

ALGUM MORADOR DO CONJUNTO — e não eu, que nunca lá morei — é que melhor poderia falar, daquele lugar privilegiado. Moleque, no então “curso primário” do Grupo Escolar Marechal Floriano, lembro que muita criançada morava nos Bancários. Outros, na favela. Ambos iam e vinham a pé, pela Vergueiro. Os dos Bancários também tomavam um ônibus da CMTC, na esquina da Dona Júlia com a Domingos. Eram os fenemês da linha 145 (acho) – Santa Cruz (rua) – Cidade. Ônibus reformados, durões, lerdos, barulhentos. Chacoalhavam como liquidificadores, daqueles de “copo” de vidro. Os da Walita, por sinal produzidos lá perto do Marechal — na Álvaro Alvim. Perto da Rio Grande, da Colgate-Palmolive. Era a Vila Mariana um pouco fabril. Walita que tempos depois mudaria para Jurubatuba. No parabrisa do ônibus, a plaqueta: “ATÉ BANCÁRIOS”, o ponto final. Não obstante a longa Rua Santa Cruz se espichar, numa subidona, ao cruzar o riacho. Até chegar à Vergueiro, com Gentil de Moura, ao lado da “Estrada” do Cursino. Onde parava o ônibus 22 da Viação Ipiranga. Perto do Cine Soberano. Desnecessário lembrar que o “Santa Cruz até Bancários” levava também trabalhadores dos demais IAPs: industriários, comerciários, trabalhadores do transporte e de cargas… E até mesmo quem não contribuísse para o IAPB.

NO RIGOR DAS COORDENADAS, ali a região sul-sudeste da Cidade. Mas aí poderia dizer alguém, do zoneamento municipal: “Esse cara é doido. Ali é zona sul!”. Não admira: quem se importa com pontos colaterais ou subcolaterais? Até as placas de sinalização só sabem conversar com os pontos cardeais. O resto é resto. Depois então que o Centro virou “expandido”, nem se fala…

A “AVENIDA ÁGUA FUNDA” não só mudou de nome como de cara. Esticada, cortou a Serra e foi ter à Baixada, como nós sabemos. Monumental e imponentíssima. De 1967 para cá, profundas alterações topográficas e fisionômicas mudaram a paisagem do lugar. A infestação de prédios altos apagou do horizonte as chaminés da Aliperti, por exemplo. Pouco lembrará a época do 1º de abril de 1967. O ilustre brigadeiro, um de nossos prefeitos eméritos, passasse por lá hoje — não reconheceria. Muito longe de ter sido aquele um dia “da mentira”, aquele 1º de abril foi o dia de uma verdade: estava sendo inaugurado o embrião daquela que viria a ser a Rodovia dos Imigrantes.

AS BELAS GARÇAS, no voo elegante e suave — emoldurado pelo azul do céu paulistano de outono, as garças se aproximam, baixando gradativamente e planando, para pouso no riacho. De águas rasas mas profundamente poluídas. É até romântico o fato, em contraste com a relativa aridez do lugar: trânsito pesado, barulhento, neurótico e alvoroçado. Pouco à frente, outro paradoxo: Atrás de grades — mas em liberdade total, já que protegida do vandalismo — a placa de 1967. Por certo tê-la-ia impedido de chegar aos dias de hoje o abominável e covarde vandalismo. Que procura enfear a cidade.

LINDAS AVES BRANCAS que poeticamente sulcam o ar daquele sul-sudeste paulistano. Uma sugestão aqui vai: mudai o destino sem glória, qual seja o de pousar naquelas águas quase sem vida. Pedi vós, garças esplêndidas, autorização à torre de controle. A que controla o voo de todas as aves. Autorização para pouso num outro lugar, ali pertinho mesmo: aquele oásis. Onde — repleto de vida que se traduz em árvores, jardins e gramados — certamente, garças do riacho, sereis bem-vindas. Posso vos garantir que sabiás, bem-te-vis e sanhaços; beija-flores, bicos-de-lacre e pardais; joões-de-barro e azulões, além dos alegremente barulhentos periquitos — toda essa gente do céu de São Paulo — todos vos acolherão! Afinal, garças em águas poluídas magoam o coração da Cidade…

RUBENS CANO DE MEDEIROS