O 109: balançando, rumo ao Cambuci

Por: Rubens Cano de Medeiros

Mesmo para aquele tempo (anos 50, eu moleque), era uma linha de trajeto curto — comparada ao comum das linhas de ônibus e de bondes. Linha que nascia na Praça Rodrigues de Abreu, onde Paraíso e Vila Mariana se abraçam. “Largo do Guanabara”, referiam ainda moradores mais velhos. À frente da qual praça ficava a Brahma, não? Cujas imponentes instalações dominavam todinho um enorme quarteirão!, lembram contemporâneos de mim. De quando a rua hoje ao lado do metrô era “dos Tupinambás”, belo nome. Que teve esse nome trocado: coisa de São Paulo.

Brahma no Paraíso, “Antarctica” na Mooca: nomes de peso no mercado de fabricantes de “bebidas e conexos”, do parque industrial paulistano. Brahma cujas altas chaminés expiravam vapores e rolos de fumaça branca, que exalavam aroma inconfundível. Muitos ainda lembram disso. Naquele Paraíso quase Vila Mariana, prédios que eram referência “geográfica”, sem dúvida: a enorme Brahma, a Catedral Ortodoxa (cuja arquitetura, eu moleque me impressionava pelo diferente das outras igrejas), o Colégio Ypiranga e a Santa Generosa, da Praça.

Igreja de Santa Generosa, grandona que era, não? A qual, uma vez implantada a 23 de Maio, foi mudada de lugar — e de tamanho. Mudou para a Bernardino. Comparada hoje à originária, não seria pecado dizer que é uma grande capela. Perto dela, outra referência: a Panificadora Viana. Ponto de escala de cobradores e motoristas das linhas circulares da CMTC — e de sentidos opostos — 2 e 3 – Avenidas, não? 23 de Maio que submeteu a Praça a uma “cirurgia plástica” de tal envergadura… Que a Praça não resistiu: morreu para valer!

Aliás, Praça Rodrigues de Abreu que, por exemplo, não tinha aquele charme nem a afluência de povo da Dona Ana Rosa. Tinha somente os mesmos belos postes ornamentais, de ferro corrugado (ou canelado) comuns em muitos logradouros — que, era de esperar, não sobreviveram ao passar do tempo. É que foram atacados por um vírus mortal denominado “sucata sucatabilis”. Que prospera (o vírus) onde floresce a indiferença. Mas a Praça tinha feira-livre. Aos domingos, acho. À qual minha mãe até ia, muito embora não morássemos ali do lado. Das barracas de doces sírios como o “haleu” (era assim?). Ou então a feira de Moema (oba! Bonde Santo Amaro, que gostoso!).

E era curta mesmo a tal linha 109 da CMTC. De belos ônibus americanos Twin-Coach, vermelhões, que balançavam no rumo do Cambuci. Ônibus que descansavam na garagem do mesmo bairro. E que cruzavam uma Domingos de Morais (curto trajeto) a qual — tanto quanto ao trânsito como quanto ao comércio e serviços — inimaginável para a agitação de hoje. Rua de paralelepípedos, em toda extensão. E bondes nos dois sentidos. Trilhos — muitos lembram — que delimitavam entre si estreita faixa de asfalto. Para sobressair no chão de pedras, como um alerta: ó motorista, aqui tem bonde, hein!

O perigo para nós os pedestres eram os carros, não? Isso na hora de subir nos bondes ou deles descer. Porque no trecho da Domingos, entre a estação dos bondes e a Correia Dias (no Paraíso), os elétricos barulhentos corriam — sentido da Cidade — no contrafluxo dos carros, não? Já os ônibus, não: iam para o Centro pela estreita Vergueiro. Vergueiro que as obras do metrô a alargaram gigantescamente, desde a São Joaquim até a atual Professor Noé de Azevedo, não é? Assim, subir no bonde ou dele descer, era atentar para os carros. Afinal, já dizia a velha Light bem antes de nascer a CMTC: prevenir acidentes era dever de todos. Uma verdade. Que muitos ignoram, não?

Ao sair da Domingos — no rumo do Cambuci, balançando — os Twin da linha 109 guinavam na Praça Teodoro de Carvalho. Para daí ganhar a Neto de Araújo. Como não lembrar? Neto de Araújo de casarões, sem qualquer dos prediões altos hoje do lugar. Para em seguida ter à Lins de Vasconcelos — também de paralelepípedos — por ela seguindo todinha. Até chegar ao Largo do Cambuci — e seu belo chafariz ou fonte iluminada. Lins, dos cines Lins (também) e Riviera, nos quais não me lembro de ter entrado. Cambuci, reduto industrial importante do tempo da São Paulo fabril. Principalmente na Rua da Independência, Dona Ana Néri e nas cercanias do Glicério e da Avenida do Estado, não era?

Longínquos anos 50, da São Paulo escura à noite, luzes de filamento de pouca potência se comparadas ao vapor de mercúrio, que veio com Faria Lima. São Paulo até de ruas de terra, em bairros não tão distantes do Centro, quanto mais naqueles que os jornais chamavam de “arrabaldes”. Periferia? Ninguém falava. Falavam, sim, “subúrbio”, nome que já evaporou.

Lembro bem — e lembrará qualquer concidadão “do meu tempo” — a Lins naquele trecho: trecho onde hoje a GET-4 da CET e do lado oposto, no subsolo da Lins, onde o Roldão. À época, como ausentes os prédios altos, que visão que dava, hein! Desses dois lados da Lins, grandes vazios e matagal. Onde hoje o Klabin, a então “favela do Vergueiro”. A Ricardo Jafet ainda era um sonho que se chamava, em projeto, “Avenida Água Funda”. A gente enxergava longe, para bem além do Museu do Ipiranga. Nazaré, o Alto do Ipiranga, a visão alcançava até a Aliperti, na Água Funda. Do lado oposto, um grande vazio para além dos fundos do Cemitério de Vila Mariana. Cemitério que, pela localização, parece mais da Aclimação. Divisa, deve ser.

Salvo equívoco, daquele tempo de mim, moleque, na Lins de Vasconcelos só mesmo o 109 – Praça Rodrigues de Abreu – Largo do Cambuci. Exceto os trólebus, que ainda hoje, passam num médio pedaço da Avenida. Talvez houvesse algum Vila Monumento: que confirmem. Com o tempo, o percurso de volta sofreu pequena alteração, ali na Basílio da Cunha e na Lacerda Franco — como ainda é o trânsito até hoje.

Não, não sei até quando durou o balanço dos Twin da linha 109. Lembro que no começo dos anos 60 surgiram duas outras: Sumaré – Ipiranga e Fábrica – Pinheiros. Que cobriam o percurso da 109. Ali, então, a Lins começava a ser o verdadeiro corredor que é hoje. Os belos Twin se recolheram, ainda que involuntariamente, para outra garagem: a do passado.

Afinal, o que pretende este texto? Já que ele não é nenhuma contribuição histórica nem mesmo prodígio da memória paulistana: é, quando muito, algo pitoresco e tá muito bom se assim for. O texto é tão-só meu prazer de participar do belo site Independência ou Morte: este, sim, guardião fidedigno da memória do Ipiranga e de São Paulo..

Reminscências de mim, as quais balançam na memória. E no rumo da nostalgia. São lembranças que naturalmente tendem a dissipar — como os vapores de cevada das chaminés da Brahma. Lembranças que remetem ao tempo em que o moleque, no balanço da 109, eu chegava à Praça com uma dúvida atroz: afinal, aqui é Vila Mariana ou Paraíso? Hoje, nem importa: aquilo é uma coisa só. Um lugar de veículos alucinados, correria desenfreada, inquietação urbana. Onde a referência agora é o metrô. Porém ao lado da encantadora arquitetura da Catedral Ortodoxa. Coisa de São Paulo…