Mesmos trilhos

Relato muito superficialmente de memória paulistana. Alguma lembrança, de bondes. Algo mais paulistano que os bondes?

Como sabemos, a João Mendes é de raízes judiciárias. Pois lá, um de frente para o outro: Palácio da Justiça e Fórum. Dois belos, históricos e imponentes prediões, marcantes da arquitetura paulistana. Com a gigantesca Catedral, logo ao lado, as três edificações dão belo cartão-postal, não? Mas a João Mendes também foi reduto de bondes. E como foi! Num canto da Praça, as linhas que subiam a Liberdade, como bem lembram muitos. No outro canto, em frente ao Fórum, saíam três outras linhas: Fábrica, Ipiranga e Vila Prudente. Que proviam de trabalhadores bairros de grande (e importante) concentração de fábricas. Já a partir do Cambuci. Região do Ipiranga, Sacomã e Vila Prudente. À época — anos 50 — considerando só esse trecho da Cidade, São Paulo já seria uma Detroit. Ou Manchester. Ou Turim…

As três linhas tinham trilhos em comum. Num grande trecho. Até que cada qual desgarrasse, mais ali e acolá.Mesmos trilhos, da João Mendes à Tabor, ao menos: Conde do Pinhal, ruas da Glória e do Lavapés; Largo do Cambuci, Independência e Avenida Dom Pedro I. Essa, como atualmente, bela alameda de tipuanas. Em cujas pistas laterais rolavam os coletivos. O bonde Vila Prudente com a rivalidade dos pequenos ônibus Ford. Amarelinhos, da empresa Vila Paulina.

No Vila Prudente, quando moleque, viajei poucas vezes. Suficiente para lembrar dos carros abertos. Dos dois lados. De truque de quatro rodas: bondes idênticos àquele orgulhosamente residente no Museu. Bondinho que, no trajeto, oscilava de um lado para o outro, dando tranco nos viajantes. E o cobrador, hein! Bonde lotado: montão de “pingentes”. Em pé, no estribo, agarrados aos balaústres. Paulistanos, como eu, cinquentões ou mais, lembrarão. O cobrador — numa conjugação de acrobacia, ginástica e balé (pois na pontinha dos pés, no estribo cheio) — cobrava passagens e as registrava, no “ding-ding”! Sem se esquecer, o cobrador, do alerta mais que oportuno: “Olha à direita!”. De quando, sorrateira, uma carroceria de caminhão estacionado no meio-fio convidava um dos dependurados do estribo a uma outra viagem: direto para o céu, com escala antes no chão…

Bondinho de Vila Prudente que cruzava outros trilhos: os da Santos-a-Jundiaí, na Estação Ipiranga, de linda arquitetura. Antes de ali ser plantado o tão belo quanto extenso viaduto. De quando na Ford nasciam os caminhões F-600, que a gente podia ver saírem da fábrica só boleia e chassi, ainda sem a carroceria…

Já o bonde Fábrica, nele andei também algumas vezes quando igualmente carros abertos. Só que grandes, fechados do lado esquerdo. Quando ia com minha mãe para ela comprar coisas em lojas de armarinhos. Na Silva Bueno, que o bonde Fábrica singrava nos dois sentidos. Até ir fazer o “balão” do ponto final num Sacomã de sobradões de tijolos aparentes. O bonde Ipiranga, como é sabido, subia e descia a Bom Pastor, até o Padre Chico. Viajei algumas vezes nele, bondes camarões.

Por volta de 1956, álbuns de figurinhas mostravam o C. A. Ipiranga, alvi-negro de listas largas, verticais. Cujo campo, dele não lembro, creio (corrijam) na Sorocabanos. Cujos jogos eram abastecidos de torcedores que se serviam daqueles três bondes. Desde mais remoto, quando tanto o bonde como o time eram “Ypiranga”, mostram-nos jornais de arquivo.

Cambuci, Ipiranga, Sacomã, Vila Prudente — e circunvizinhança: ajuntamento considerável e impressionante de fábricas, oficinas — sem esquecer o comércio pulsativo. Uma São Paulo que já se foi: indústrias alimentícias, do vestuário, fiação e tecelagem, malharia; indústrias químico-farmacêuticas, gráficas, de papel, metalúrgicas, mecânicas, do mobiliário; marcenarias, carpintarias, indústrias de material elétrico, fundições e galvanoplastia. Como nós sabemos, a indústria automotiva nacional teve sua semente plantada no chão do Ipiranga. E como vingou! Pelas ruas dessa grande região se sentia cheiro de limalha: denotava a presença de pequenas e médias oficinas, tornearia e ferramentaria. Tempos da Piratininga de chaminés.

Bem sabemos que foi assim. Tanto ocorreu com os paralelepípedos como com os trilhos dos bondes da CMTC. Soterrados, da paisagem, a partir dos anos 60: lavas de vulcões betuminosos, espalhadas pelas vias, por operários da Prefeitura. Até ironia do destino: muitos dos que ora cobriam os trilhos, certamente muitos deles ex-usuários dos bondes, cujos trilhos sepultavam… Trilhos e paralelepípedos: de uma São Paulo da garoa, só de fotos de jornais, livros, cartões-postais…

É claro, aconteceu também com a Lavapés. A qual, como todas as vias da Paulicéia, estendeu seu manto de asfalto à velocidade maior dos nossos milhares de ônibus. Primeiro bondes, depois só ônibus: natural essa sucessão. Inevitável. O tempo e o vento — esse, vento das mudanças…

E tão natural a sucessão que restaram esquecidos os bondes. E esquecidos até mesmo pelos tijolinhos. Tijolinhos do extenso muro da Lavapés. Daquelas outrora “Oficinas do Cambuci” da Light. Tijolinhos aqueles que — melhor que ninguém — por décadas testemunhavam o vaivém dos bondes. Bondes que, orgulhosamente, vermelhões, eram o sangue das artérias fabris, dos anos 30 aos 60. Uma São Paulo que nunca mais, claro.

Se nem os tijolinhos se lembram, ao menos um lenitivo: dos bondes, o coração da Cidade não olvidou. Do fundo desse imenso coração ainda dá para escutar. Com certeza, a alma de algum ex-cobrador, que pendia dos balaústres, sobre o estribo. Para manter acesa a chama de imortalidade dos inesquecíveis bondes paulistanos: “Olha à direita, São Paulo”…

Por Rubens Cano de Medeiros