Lembranças X

Morávamos na rua Ituiutaba, relativamente perto do Parque da Independência (sempre lembrado como Museu do Ipiranga), nos fundos do Instituto Padre Chico. Quando ganhei meu triciclo, meu pai me levava todos os domingos ensolarados para passear pelas aléias do parque contornando as fontes. No final da manhã eu ganhava um pirulito da Kibon, comprado em um daqueles carrinhos amarelos que ficava no portão em frente ao IAPETC, hoje hospital pertencente ao INSS. Estudei o pré primário no Externato D. Pedro I, que ficava na Av. D.Pedro, hoje já demolido dando lugar a um edifício de apartamentos. O primário e o ginásio no Colégio Cardeal Motta, na rua Paulo Bregaro. Paulo Bregaro foi o portador das cartas que foram enviadas da Corte para D. Pedro I comunicando as exigências da Corte Portuguesa; encontrou a comitiva do Imperador, voltando de Santos, junto ao riacho do Ipiranga. Hoje o Monumento está entregue ao acaso, se fosse em um país com povo que respeitasse a sua história o local seria guardado pelos Dragões da Independência durante as 24 horas, todos os dias do ano.

Autor: Zoltan Bergmann – 14.02/2006

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… O ABANDONO DO PARQUE DA INDEPENDÊNCIA É UMA DOLOROSA REALIDADE, ATUALMENTE COLOCARAM GRADES DE PROTEÇÃO MAS NÓS TIVEMOS O ROUBO DA ESPADA DA ESTÁTUA DE D. PEDRO, ROUBARAM ATÉ A BANDEIRA BRASILEIRA DO MASTRO!!! AGORA COLOCARAM OUTRA QUE É BAIXADA POR CONTROLE!!! QUE PENA!!! A FALTA DE CIVILIDADE E EDUCAÇÃO DO POVO É UMA LÁSTIMA…

Autor: LEONELLO TESSER (NELINHO) – 10/09/2007

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… EU COMO MORADORA DO IPIRANGA HÁ 33 ANOS E CIDADÃ BRASILEIRA E FREQUENTADORA DO MUSEU sempre faço minha parte… educando meus filhos para que respeitem esse espaço, incentivo meus alunos para que façam o mesmo e participo de qualquer ação em prol do mesmo … AÇÃO É A SOLUÇÃO DE TODOS OS PROBLEMAS DE NOSSO PAÍS!!!!!

Autora: Simone Mendes Maldegan – 02/03/2007

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… ao chegar em Sao Paulo em 1999, sonhando conhecer o famoso monumento da Independência, que conhecia apenas pelos livros de Historia do Brasil do Colégio, ao pisar pela primeira vez no local, senti a “Força Mágica do Lugar” que confirmei observando em detalhes o monumento, cheio de Simbolismos fantásticos que povoam a imaginação da Humanidade mas foi quando descobri que Dom Pedro I e Princesa Leopoldina estavam enterrados ali, que vi o enorme valor Histórico que aquele local tem para nos Brasileiros e as futuras gerações, na historia da Humanidade os Dragões simbolicamente são os guardiões de grandes Tesouros, nada mais justo do que guardarem os restos mortais de um Imperador e o legado historico de Independência de nosso Pais.

Autor: AXEL VIANNA FRANCES – 20/08/2006

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… Na minha juventude eu ia, com os amigos, no bar do Maninho. Fui com meu filho ao museu e passamos no Bar do Maninho, hoje descaracterizado, infelizmente.

Autor: Zoltan Bergmann – 25.07/2006

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Ipiranga, 1958. Aos doze anos de idade eu trabalhava numa banca de cereais, banca essa instalada no Box 33 do Mercado Municipal do Ipiranga, Rua Silva Bueno, Sacomã. Num certo dia fui levar uma encomenda na Rua Lord Cochrane, Sacomã/Ipiranga. Como estava chovendo, portava eu um guarda chuva que pertencia ao dono da banca de cereais. Saí do mercado com a encomenda e fui andando pela Rua Silva por Bueno alguns quarteirões. Logo estava na referida rua, entrando nesta travessa fui procurando o número da residência, olhei o número anotado no papel outra vez até que encontrei a residência do então cliente.

Campainha não tinha, bati palmas e logo avistei o morador que estava lá no fundo do quintal tratando de passarinhos. Ele me conhecia, afinal ele também tinha uma banca de frutas no mesmo mercado, e foi dizendo “vai entrando sem medo, pois aqui não tem cachorro”… Após cumprimentá-lo fui lhe entregando os devidos pacotes da encomenda, ele em seguida conferiu item por item, tudo certo, de acordo com o seu pedido.
Estando tudo certo, iniciamos uma conversa qualquer, e daí me disse que estava preocupado com o seu vizinho que morava ao lado, pois o mesmo estava mal de saúde. Nesta conversa ele me disse que ia guardar a encomenda e já ia visitar o seu amigo. Perguntei-lhe qual era o nome do senhor, era Cascatinha. Perguntei de novo… Cascatinha da Inhana? Sim respondeu, é ele mesmo. Eu perguntei a ele se podia ir junto. Ele, tudo bem, vamos lá.

No caminho fui dizendo ao senhor que eu já os tinha visto por diversas vezes, isto quando eles se apresentaram no Circo Pavilhão Françoise (pronuncia Françoá), circo esse que pertencia à família da dupla Tonico & Tonico, que tinha se instalado na Rua Vemag com Rua Lício de Miranda, Vila Carioca, também os vi andando de mãos dadas pelas ruas do Sacomã, mas vê-los de pertinho e conversar com eles, isso nunca.

Entramos pelo portão adentro e fomos caminhando até os fundos do quintal, e lá estava a senhora “Inhana”, que numa gentileza foi dizendo “podem entrar, eu acabei de passar um café no bule, está quentinho, e tem mais, esse café fui eu que torrei no velho moedor”, e foi mostrando o tal moedor.

Tomei uma xícara de café, entre um gole e outro fomos conversando. Em seguida fui até o quarto indicado por ela onde estava “Cascatinha”, que estava deitado na cama, mas com boa aparência. Ele não me conhecia, apenas fui lá cumprimentá-lo, pois não queria incomodá-lo, ele apenas falou que logo voltaria a exercer suas atividades artísticas, tinha algumas apresentações a cumprir, e o problema não era grave. Fui me despedindo, desejando que se recuperasse. Ele agradeceu pela visita.

Indo para a cozinha, novamente iniciei a conversa com a Inhana, e esqueci de que estava em horário de serviço, lembrei-me disso, e fui me despedindo da Inhana, peguei um guarda chuva e fui de volta para o mercado, preocupado pela demora, sabendo que ia levar uma bronca do patrão. E assim foi. Acabando de chegar ao mercado, o patrão disse-me cobras e lagartos, e o pior de tudo é que eu tinha trocado o guarda chuva novo por um velho. Toca-me voltar à casa da Inhana buscar o guarda chuva certo. Enfim, mesmo com toda bronca achei que valeu a pena, pois conheci pessoalmente a dupla “Cascatinha & Inhana”.

Autor: J. C. Oliveira – 11/12/2007

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… EU TAMBÉM COMO VELHO MORADOR DO IPIRANGA TIVE A OPORTUNIDADE DE CRUZAR VÁRIAS VEZES COM A DUPLA “CASCATINHA E INHANA” LÁ NA RUA LORD COKRANE, MINHA ESPOSA MORAVA NESSA RUA QUANDO A CONHECI E EU MORAVA NA AGOSTINHO GOMES QUASE ESQUINA COM A LABATUT…

Autor: LEONELLO TESSER (NELINHO) – 11/12/2007

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Após pesquisar bastante consegui obter mais alguns dados da brilhante carreira do Nenê (que infelizmente nos deixou no último mês de agosto), foi campeão juvenil pelo C.A. Ypiranga e atuou pela primeira vez na equipe principal em 8 de abril de 1945, nesse dia o Ypiranga derrotou o santos por 4×1, gols de Milton, Aldo e Nenê (2), o jogo foi realizado no estádio “Prof. Nami Jafet” na Rua dos Sorocabanos, o Ypiranga formou com: Tadeu, Lulú e Sapóleo, Garro, Oliveira e Alcebíades, Aldo, Reinaldo, Milton, Nenê e Alberto. Em 1947 seu passe foi adquirido pelo E.C. Corinthians Paulista, estreou no dia 7 de junho de 1947 exatamente num jogo contra o seu ex-clube, o Corinthians formou com: Bino, Domingos da Guia e Aldo, Pelliciari, Helio e Aleixo, Cláudio, Baltazar, Servilio, Nenê e Ruy, o Ypiranga formou com: Rafael, Alberto e Sapóleo, Reinaldo, Bernardi e Belmiro, Rubens, Braz Peixe, Silas, Bibe e Valter. Em 1950 retornou ao Ypiranga e fez o primeiro jogo em Campinas contra o Guarani, o time formou com: Cola, Belmiro e Homero, Gonçalves, Reinaldo e Dema, Bueno, Rubens, Liminha, Chuna e Nenê. Em 1951 foi cedido ao C.A. Juventus, fez o primeiro jogo contra o Palmeiras no Pacaembú, o Juventus jogou com: Caxambú, Luizinho e Pascoal, Og Moreira, Osvaldo e Nésio, Castro, Edélcio, Osvaldinho, Nenê e Noronha. Em 1952 foi para o São Paulo Futebol Clube, sua primeira partida foi contra a Portuguesa Santista, o São Paulo formou com: Bertolucci, Turcão e Mauro, Pé de Valsa, Ruy e Alfredo, Maurinho, Bibe, Albella, Nenê e Teixerinha. Atuou ainda no Marília e desistiu do futebol prematuramente devido a uma lesão no joelho. Nenê, um craque de verdade!!!

Autor: Leonello Tesser (Nelinho) – 19/10/2007

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Ontem à tarde tive oportunidade de assistir a uma entrevista concedida à “tv câmara” pelo sr. Giovanni Bruno, homem simples, que ocupa um lugar de destaque na gastronomia paulista, impressionou-me pela sua humildade contando a sua vida desde que chegou ao Brasil e agradecendo a todas aquelas pessoas que o ajudaram a chegar até sua posição atual. Cheguei a frequentar um restaurante lá pelos lados da Rua Avanhadava que, ao que me consta, pertenceu ao sr. Giovanni. Há muito tempo li um comentário de um colunista especializado em gastronomia tecendo elogios ao restaurante “Il Sogno di Anarello”, entre outras coisas o colunista dizia que o sr. Giovanni costumava brindar seus clientes cantando uma música de nome “champagne”, uma das mais belas páginas da música italiana, chegando a quebrar uma taça ao final da interpretação. Assim, em companhia de minha esposa fomos ao referido restaurante na esperança de saborear seus deliciosos pratos e, quem sabe, ter o prazer de ouvir o sr. Giovanni cantar novamente a música que é minha preferida, infelizmente não pudemos ouvi-lo, pois naquela noite o sr. Giovanni não estava presente até a hora em que deixamos a casa, em compensação a comida foi excelente e saímos plenamente satisfeitos nessa parte, quem sabe um dia ainda possamos ouvir o Giovanni. Moro no bairro do Ipiranga e já vi o sr. Giovanni circulando pela feira de domingo do bairro, e alguém me disse que o sr. Giovanni reside no bairro, região do moinho velho, se assim for, o nosso bairro está mais enriquecido por contar com essa figura humana de rara sensibilidade que agradeceu efusivamente a acolhida que teve em São Paulo e ressaltar seus conselhos a todos àqueles que almejam vencer em qualquer carreira profissional, meus parabéns sr. Giovanni, que Deus proteja o senhor e sua família e que o sucesso esteja sempre presente em sua trajetória profissional.

Autor: Leonello Tesser (Nelinho) – 01/10/2007

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E lá se foi o Nenê, seguiu para morada eterna apos longo tempo de sofrimento, iniciou a sua carreira no juvenil do c.a. Ypiranga, galgou a posição da equipe profissional e, graças ao seu talento foi contratado pelo Corinthians, passou pelo Juventus, passou pelo São Paulo f.c. onde jogou com grandes astros da época, tais como: Teixerinha, Canhoteiro, Albella, Negri, Poy e tantos outros. – quem o viu pelo Ypiranga, na década de 40, conta que num jogo contra o Corinthians, Nenê aplicou uma finta no famoso Domingos da Guia deixando o lendário zagueiro sentado no solo.
– descanse em paz. –

Autor: Leonello Tesser

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Em homenagem ao Dia das Mães que ocorreu dia 13/5, ou seja último domingo vou contar a história de uma mãe fantástica: a minha.

O nome dela era Maria de Lourdes, chamavam-na de Lourdes e com o passar dos anos D.Lourdes. Todos os que a conheciam achavam que ela era o protótipo de uma pessoa feliz, imaginem a figura: baixinha, gordinha, cabelo bem liso e grisalho, a mil por hora e sempre com um sorriso estampado no rosto. Porém, quem a conhecia melhor sabia que por traz daquele sorriso se escondia uma mulher sofrida e uma grande tristeza.

Ela nasceu no bairro de Santana, mais precisamente na R.Olavo Egídio,
com dois anos mudou-se para a Rua Silva Bueno, no Ipiranga. Era a 3ª
de 6 irmãos, portanto, não tinha as regalias do caçula, nem a liberdade do mais velho, além de tudo sofria de violenta gagueira o que lhe causou vários aborrecimentos – até a gagueira ela venceu pois quando adulta não mais gaguejava. Faço aqui um parênteses para contar uma história que ocorreu com ela quando criança que seria cômica se não fosse uma fonte de tristeza para ela e que depois de adulta ela contava e se divertia: com 5 ou 6 anos ela diariamente, ia de trem, da estação do Ipiranga à estação do Pari, levar a marmita para o meu avô, certa feita quando foi comprar a passagem para voltar para casa ela pediu: Por favor, uma passagem para o Ipi, Ipi, Ipi, e vendedor de passagens gritou Hurra!, não é difícil de adivinhar o estrago no ego de uma criança.

Com 10 anos ela terminou o primário e foi trabalhar numa fábrica de meias, no Ipiranga, onde trabalhou até se aposentar. Embora ela tivesse estudado até o 4º ano, lia e escrevia muito bem, mercê do fato de ter sido sempre uma leitora voraz, lendo Monteiro Lobato, José de Alencar, Machado de Assis, livros de capa-e-espada dos Dumas, Pardeillan, enfim, ela fugia da miséria do seu dia-a-dia para as páginas dos livros, onde ela poderia ser uma princesa, uma fada, o que desejasse.

Por volta dos 20 anos ela casou-se com um primo, o Zeca, meu pai, e se
sua vida já era difícil piorou muito. Eram duas pessoas completamente
diferentes com uma única coisa em comum, ambos eram muito trabalhadores, só que o que minha mãe ganhava ia para o sustento da casa e o que meu pai ganhava ia para a jogatina, ele era um jogador compulsivo, enfim, a miséria da vida dela aumentou, sempre morando em cortiços, vilas, habitações coletivas, nunca sabendo se no final do dia ele voltaria para casa ou se fugiria pois dera um desfalque, armara um trambique, fugira de agiota para pagar dívidas de jogo.

Uns dois de casamento nascia o 1º filho, o Zequinha meu irmão mais velho, simultaneamente meu pai fugiu para o Rio de Janeiro. Quando meu irmão tinha uns dois anos ele teve uma pneumonia, agonizou e morreu, minha mãe registrou tudo num caderno, quem quiser saber o que é sofrimento de uma mãe, precisa ler esse caderno – eu o guardo até hoje, cumpri dizer que meu pai não veio para o enterro do filho.

(parte II)

Como eu dizia, meu pai não voltou para o enterro do filho. Após algum fracassado voltou e a minha mãe o aceitou de volta, depois da volta dele ela engravidou quatro vezes e em todas perdeu a criança, na quinta vez nasci eu, ou seja, sou filho único de uma mãe que engravidou seis vezes. E a nossa vida seguia miserável. Em 1950 ou 1951 meu pai sofreu um grave acidente quando se instalou um processo de osteomielite que o matou oito anos após. Se nossa vida era ruim, ficou pior, pois ele além de continuar jogando passou a ter despesas com a doença. Para ela, então, ficou muito pior, pois além de trabalhar, cuidar da casa, ir ao hospital uma ou duas vezes por semana ainda tinha que bancar a enfermeira quando ele estava em casa, sempre sofrendo xingamentos e até agressões, enfim nossa vida era um inferno.

Mas, como ela dizia, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe, em 1958 ele morreu e a nossa vida começou a melhorar, eu já trabalhava desde os 11 anos e aos 14 consegui meu primeiro emprego com carteira assinada sendo que ainda me pagava os estudos. Gostaria de fazer um parênteses aqui para contar um fato que ocorreu quando eu tinha 5 anos. Todo dia minha mãe me levava para o Parque Infantil e ia para o trabalho; na hora do almoço retirava uma marmita no Círculo Operário do Ipiranga e ia para o Parque dividir comigo, inúmeras vezes eu, no meu egoísmo infantil, comia toda a marmita e ela voltava para o 2º turno do trabalho com a barriga vazia sem nunca reclamar ou pedir que eu deixasse um pouco para ela.

Voltando, em 1959 nossa vida começou a melhorar, eu continuei estudando e cheguei a fazer pós-graduação, fui melhorando financeiramente e em 1976 construí uma excelente casa próxima ao C.A.Indiano na represa de Guarapiranga, um lugar lindo.

Aproveitei e construí um apartamento completo, com entrada independente, com cozinha em fórmica azul como era o sonho dela, nesta altura ela estava aposentada há uns 5 anos cuidando de suas plantas e dos gatinhos abandonados que apareciam no quintal da casa dela. Com muito custo e usando o argumento dos netos, nesta altura meus 3 filhos já haviam nascido e eram a alegria dela, consegui convencê-la a morar conosco. Mas, tem pessoas que parecem que só nascem para sofrer, dia 4/1/1978, quinze dias antes da mudança ela teve um AVC, com 63 anos, que a deixou semi-paralítica e que em 4/8/1981 a levou. Naquela noite eu juro que vi uma estrela mais brilhante no céu e tenho certeza que lá havia um anjo baixinho, gordinho e risonho e que finalmente havia encontrado a felicidade.

Agora, que cada dia que passa mais se aproxima o nosso reencontro, tenho certeza que quando eu for para o outro lado ela estará me esperando para pavimentar meu caminho, como ela sempre fez do deste lado. Tem tanta coisa mais para contar sobre ela, mas as lágrimas não me deixam enxergar o teclado. Mãe, não passa um dia sem que eu pense na senhora. EU TE AMO MINHA MÃE!!!!!

Autor: Antonio Souto – 14/05/2007

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Em 1959, eu cursava o 2o. ano do Ginásio no curso noturno do Ginásio
Centro Independência, no Ipiranga.

Havia na escola, nessa época, duas irmãs muito bonitas.

Uma delas, a Anita, era minha colega de classe e tinha apenas 13 anos
sendo que eu tinha 14 anos, embora ela fosse uma criança era muito bonita, mas ainda estava em formação, portanto, tinha pouco seio, era
ossuda, mas prometia se tornar uma linda mulher.

Eu era um garoto ingênuo, sim naquela época com 14 anos éramos crianças ingênuas e como era previsível, visto que morávamos próximos e íamos embora todo dia juntos nasceu uma “paixão arrebatadora”.

Três meses depois, da minha parte, a paixão havia arrefecido e eu sentia falta da algazarra com os colegas e sendo assim terminei o namoro.

No final do ano eu fui aprovado e ela não, simultaneamente ela mudou-se para outro lugar do Ipiranga e perdemos o contacto.

Passado 1 ano, eu estava trabalhando no Mappin quando o recepcionista do meu andar foi à minha secção e disse:

-“Souto, tem uma tremenda loira te procurando”.

Dirigi-me à recepção e para minha surpresa deparei-me com uma Anita
já moça/mulher, linda, sexy, com o cabelo tingido de loiro e, o que foi melhor, ainda apaixonada por mim, daí reatamos.

Nessa época ela era caixa da Doceira Paulista e assim uni o útil ao
agradável, pois todo dia na hora do almoço eu ia namorar e aproveitava para comer um doce “Mil folhas”, ainda me sentia o máximo pois ela era alvo dos olhares cobiçosos e era minha namorada.

Porém, como tudo que não exige esforço a gente não valoriza, alguns meses depois tornei a terminar com ela.

Passado mais um ano, eu estava descendo as escadas de serviço do Mappin quando no prédio em frente, na R. Cons. Crispiniano eu a vi, linda, deslumbrante, enfim um “mulherão”. No ato eu pensei: vou voltar com ela, contei os andares e como era fim de expediente deixei para o dia seguinte.

No dia seguinte, procurei-a no local que a havia visto quando fui informado que no dia anterior havia sido seu último dia na empresa.

Como tudo que a gente não pode ter a gente quer, bateu-me uma “paixonite”, mas nunca mais a vi.

Durante muito tempo, sofri com “A AUSÊNCIA DE ANITA” sofrimento que só acabou quando conheci aquela que viria a ser minha mulher e que, apesar dos percalços estamos juntos há 36 anos e que era tão bonita quanto a Anita, na época, e hoje é uma senhorinha linda, que quando entra na fila da 3a.idade todos reclamam e dizem que ela não pode, pois ainda não é da 3a.idade e quando eu estou junto me encho de orgulho.

Agora, aos 62 anos, quando estou no mar com meus pensamentos, pergunto: -“Por onde andará Anita, a que me amou sem reciprocidade”?

Autor: Antonio Souto – 13/03/2007

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Morávamos em Gráuna (linha da Paulista) íamos de trem para São Paulo. E quando chegávamos na estação da Luz, íamos até a praça da Sé e lá tomávamos o bonde com destino ao bairro do Ipiranga, descíamos na Av. Nazaré e a pé íamos pelas ruas de terra vermelha bastante barrenta ate a rua Dr. Mario Vicente onde morava minha Avó Rosalina. Era uma festa chegar na casa de minha Avó que fazia de tudo para nos agradar . Ainda me lembro muito do fogão a carvão da carroça que trazia o leite em litros de vidro o carroção de lixo do carvão.

Autor: Manoel Antonio da Silva Neto – 16/11/2005

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Na soleira da porta da casa da Rua Silva Bueno, 369 foi onde eu aprendi a chorar. Na vizinhança, a Dona Maria, alegre de tão festeira, trançava balas de coco pra festa da filha Nice, que no sábado ia casar. Neuza, minha vizinha da esquina, me fez sócia nas marmitas da pensão da Madalena, sua tia, que entregávamos todo o dia pro “fregueis”. De comissão fisgávamos duas marmitas, com mãos em garra, dois bifes, um pra cada uma, que comíamos pelo caminho até sermos descobertas. O pensionista lesado em seus bifes é que foi denunciar. Adeus marmitas, adeus aos melhores bifes de minha vida. Rua Silva Bueno, 369, na soleira dessa porta aprendi a chorar: era 1946. Um enorme corredor da minha casa feito um túnel me levava até o fim desse mundo onde ficava a cozinha. No fogão de grife “Eterno”, de chapa e elétrico, um luxo a época, onde minha mãe de luto cozinhava para nós. O luto pelo pai querido que o enfarte insistiu em levar, cobrindo de panos pretos com galões dourados a porta da casa da Silva Bueno, em cuja soleira aprendemos todos nós a chorar. Depois chegou a Amélia pra ajudar minha mãe. Era devota de Santo Onofre e alimentava meu imaginário infantil com histórias mirabolantes do “santo cachaceiro”, posto que ela oferecia bebida para ele tomar. Fui com ela a procissões da Nossa Senhora da Aparecida, cuja Basílica do Padre Mario ainda estava em construção. A sala dos milagres, de pernas e braços de muitas promessas pagar. Vi milagres na Vila Prudente, vi um paralítico andar. Fiquei com essa maluca querida um dia inteirinho a esperar, sem nem água tomar. Amélia do imaginário, Amélia do coração, onde estará a flor negra da minha imaginação?

Fui menina rica de brincar nos jardins franceses do Museu do Ipiranga, majestoso com suas fontes e flores. Fui triste ao voltar para minha casa, cuja porta vestida de luto contava que meu pai havia nos deixado. Continuei triste sentadinha na soleira da porta a esperar minha mãe querida que ia a Santo André receber a pensão, continuo triste hoje na soleira da porta da minha vida, aqui em Franca a chorar por ela, a minha mãezinha, que aos 98 anos se foi, outro dia. Não mais pra pensão ir pegar, foi encontrar-se com André, não o santo, o marido, e pai, lá no céu bem distante, de onde jamais irá voltar. Escola Paroquial São José, Dona Lucia e Antonieta de Felice, Padre Dante e Stanislaw e os judeus mascateiros que os ternos vinham comprar.

Foi assim nas margens do Ipiranga, sob a verde ramagem da Figueira, que aprendi a rir e aprendi a chorar… Na soleira daquela porta na Rua Silva Bueno, numero 369, Ipiranga, São Paulo, Brasil, minha cidade natal.

Autora: Maria Ignez Tosello Archetti