Gilda na Broadway paulistana

Por: Rubens Cano de Medeiros. Assegura o (mini) dicionário: “saudosismo é a tendência de elogiar o passado”. Algo como querer preterir o progresso, ir contra a evolução, contra as mudanças. Neste caso presente, garanto que não. Paulistanos contemporâneos de mim — isto é, mais ou menos sessentões que eu — e que gostavam de bondes, poderão concordar: gostar é simplesmente gostar; sem maiores explicações: deixar razões de lado. Daí eu querer apenas comentar. Falar algo mais sobre os bondes. Falar por falar. Como que conduzido por um saudosismo porém ameno. E nem por isso contestar o progresso.

Interessante (modo de dizer) que, no Museu dos Transportes, uma foto de um bonde aberto traz a legenda: “bonde da CMTC demolido, tal, tal”. Isso de quando os bondes foram extintos. De fato, o termo é “demolido”. Pois exceto os jogado fora, sob pretexto de “doação”, os bondes foram mesmo é demolidos. Por marretadas. Como que com raiva, com desprezo. Apenas que não só “privilégio” de São Paulo, não? Ingratidão para com a história, com a tradição. Por todo o País.

Um pequeno bonde paulistano haveria que ter sido guardado. Na coleção do Museu. Bonde que, anos 50 e 60 — eu entre moleque e adolescente — eu o via principalmente na Domingos de Morais, na Vergueiro ou na Liberdade. De quando um acidente, ou incidente, ocorria sobre os trilhos. Ou quando se rompia a rede aérea. Resultando infalivelmente num enfileiramento (de bondes) interminável. Que até paralisava o tráfego. Fila também quando o bonde atropelava. Embora, ao atropelar, o bonde fosse mais “bonzinho”: andava devagar e tinha salva-vidas! Que salvava quando podia. Restava a intenção…

Refiro-me a um bonde pequeno. Semelhante aos carros abertos, só que fechado. E de madeira. Tinha duas largas portas de correr, uma de cada lado. Duplo comando, digamos que tinha “duas frentes”, pintadas com listas amarelas, transversais. Creio que muitos ainda lembram. Trazia a inscrição “carro-socorro” e era equipado com escadas, lateralmente, e com um farolzão — um em cada “frente” — no teto. Para emergências à noite.

Entretanto, ao contrário das ambulâncias (nos anos 50, chamadas de “assistência pública”, lembram?) e dos bombeiros — que procuravam chegar sempre “na frente” — esse bonde “socorrista” (sic) chegava é depois! Não tinha como furar a fila (geralmente grande) de outros bondes à frente…

Já não me lembro com exatidão. Se o tal bonde — e outros pequenos, também de serviço — “morava” lá na estação de Vila Mariana. Era o lugar de onde eu o via entrar e sair, nas missões de auxílio aos irmãos elétricos. Com o final do sistema de bondes, certamente estes, de ajuda, também ficaram sem socorro: marretadas neles!

Um outro bonde. Tirando quem (deles, bondes) gostava — e é assim com tudo, não? — as pessoas em geral não se importavam. Nem reparavam. Quando surgia um bonde ou um ônibus novo ou reformado. “Recuperado”, dizia-se. No dia-a-dia, natural até a indiferença. Mas impossível não notar o “Gilda”. Impossible, pois americano. Da Broadway. De Nova York. Que para São Paulo vieram em 1947, quando ainda incipiente a CMTC, como é sabido. Carros de segunda-mão, uma vez reformados e adaptados para a CMTC, acabaram por se tornar de primeira linha!

Prezado(a) paulistano(a) contemporâneo(a): se tu — como no meu caso — cinquenta anos atrás! estivesses aguardando (e ansiosamente) por um bonde menos cheio — à tardinha, para voltar para casa — saberias então distinguir. O “Gilda” era um bonde “diferente”. Diferente dos camarões. Bonde que sobressaía. Quase que exclusivo da linha 36.

Sim, o “Gilda” se destacava. Por fora e por dentro. À época, mais moderno e mais vistoso. Assentos de palhinha trançada. De dois lugares, como nos ônibus. Nos camarões? Bancos de madeira, dispostos longitudinalmente ao longo do carro. De modo que as pessoas se sentavam, umas de frente para as outras, certo? “Banco dos trouxas”, falavam. Ruim às vezes para a gente olhar o percurso: tinha que fazer o pescoço dar um ângulo reto! Um encostando no outro nas paradas e nos arranques, lembram? O “Gilda” não… Bonde que eu apanhava na João Mendes e dele descia na Rua do Paraíso. De onde eu seguia a pé até a José Antônio Coelho. O “Gilda” aproava rumo à Paulista, com cuja presença ele a embelezava, ainda mais…

Bonde de excelente iluminação interna. Idêntica à dos coaches americanos, que eram vistos nos filmes. Ou nas linhas Lapa e Perdizes que saíam da Patriarca.

Meu pai, operário lighteano, trabalhou (1947) na reforma e na adaptação dos “Gilda”, para a CMTC. Nas oficinas do Cambuci. Ele de fato se referia ao bonde, como “o Gilda”. Os outros operários, também. O povo? Não me recordo, até creio que não. E muito menos como “Centex”, que é como os que gostam deles se referem. Por curioso, a internet diz que, lá na Broadway, o bonde era denominado de “Huffliner”. “Huff”, sobrenome do engenheiro que — digamos — era o “pai” deles!

Que estranha alusão! “Gilda”, alusão à beleza de Rita Hayworth, a atriz do famoso filme dos anos 30 ou 40. É o que consta. Que assim foi. E é de perguntar: afinal, Rita Hayworth era um “bonde” ou um “avião”?

Depois de terem rodado por um década na Broadway nova-iorquina, ei-los aqui — como “Gilda” — até a década de 60. “Estrelando” na Avenida São João, a Broadway paulistana!

Nos anos 70, passando por Poá, vi um desses “Gilda”. Numa “pracinha”, perto da estação de trem. “Doado” (ahn!) que houvera sido pela CMTC. No entanto, a salvo de ser demolido por marreta! E nem era preciso: carcomido, sob a ação da intempérie e alvo de vandalismo, o bonde apodrecia — a céu aberto. Afinal, era o destino: todos os bondes eram iguais perante a lei. A lei do desprezo.

Moleque que eu era, adorava o pesado ranger das ferragens. Fragor de ferro contra aço: quando as rodas cruzavam desvios: trec-trec! Barulhinho inesquecível da roldana roçando o fio: ssss! Era o camarão “voando” (40 km/h) na linha de trem, de pedra britada, rumo a Santo Amaro. Além, muito além Biológico. Quem não se lembra?

Faíscas, trancos, sibilos. Bancos de madeira dos camarões, lustrosos de verniz. Cheiro de tinta; vidros novos: “bonde recuperado, dia tal, nas oficinas da (garagem, rua) Araguaia”. No Canindé. Era o que vinha escrito nos carros, reluzindo de vermelho! No final do sistema — bondes já obsoletos e fora de época — atrapalhavam o trânsito. Sem nunca perder o encanto, a magia. Bondes: marca registrada e inesquecível da Pauliceia, da São Paulo fabril!

Um “Gilda” remanescente descansa — lindão! — no “Museu da CMTC”. A São João não é mais “nossa” Broadway. Os trilhos sobre pedra britada, rumo de Santo Amaro, viraram artéria de asfalto. Da grande frota da CMTC sobraram três bondes: falta o “carro-socorro”.

Ó, paulistanos “do meu tempo”: quereis rever bondes? Então, por exemplo, o YouTube os tem. De montão! Fascinantes, lindões! De todas as épocas: bondes “tradicionais” e bondes que evoluíram para VLT ou pré-metrô. Bondes brasileiros, americanos, canadenses: ingleses e escoceses: bondes belgas, holandeses, suíços; italianos e portugueses. Trams, tramways, streetcars, tranvia, tranviarie, eléctricos. Bondes. Que rangem nos trilhos, que soltam faíscas; de campainhas que soam “ding-ding”. Querem mais?

O que é isso, narrador? Saudosismo? Não. Apenas mera lembrança. Falar por falar. De bondes paulistanos, cujos trilhos — inconsoláveis — jazem sob o asfalto. Trilhos esperando em vão por um bonde, fantasmagórico, irreal. Que lhes viesse, ao menos, abrandar a saudade. Pois aos trilhos paulistanos, a eles também, só lhes resta lembrar. Inutilmente…