Eram rosas, agrião e borboletas… (Itororó)

Minhas Lembranças

Por Rubens Moitinho

22.06.2012

Paulistano (a) que no dia-a-dia cruzas a 23 de Maio, dirigindo teu carro ou a bordo de condução. Quero crer que nem imaginas. Que naquele trecho — e até no passado nem tão remoto assim — ali havia chácaras. Refiro o trecho compreendido entre Oscar Porto e Tutoia. Ladeado por Tomás Carvalhal e, lado oposto, por Estela, Eça de Queiroz (trecho final da rua) e José Antônio Coelho (idem). Como se fosse um grande quadrilátero verde. 23 de Maio a qual, onde era o campo de terra do Olimpicus do Paraíso, a Oscar Porto restou decepada: um pedaço pré, outro pedaço pós — que nem dá para atravessar…

Não. De fato não sei. Mesmo porque, em que pese a curiosidade, nunca pesquisei: desde quando se instalou a primeira chácara, talvez nos ano 20. Na verdade eram três ou quatro, contíguas — sem qualquer separação — como se fossem uma só, grandona. Os chacareiros, que eu tenha sabido, não eram proprietários do terrenão: só das plantas.

Chácaras e residências adjacentes. Que sobreviveram até a arrasadora chegada da 23 de Maio: tempo de Faria Lima (1965/9) que, como sabemos, sucedeu a Prestes Maia (1961/5) — o qual sucedeu Adhemar de Barros. O mesmo Prestes Maia do projeto daquela que poderia ter sido a Avenida Itororó — projeto de quando Prestes Maia prefeito nos anos 30, não? “Vão abrir a Itororó!”, murmuravam moradores mais antigos — eu moleque, lembro — entre apreensivos e temerosos. E ela realmente veio: como 23 de Maio. Devorando o chão.

E como não lembrar? Pois quando ela implantada, São Paulo terá presenciado uma das mais incríveis mudanças na paisagem urbana e de movimentação de terra — dilacerando o solo da Liberdade, do Paraíso e de Vila Mariana, desde a Praça da Bandeira. Até o Ibirapuera, dali continuando como Rubem Berta, uma verdadeira radial-sul, não foi?

Lá morei desde 1948 até meus 20 anos. Numa casinha simples de grande quintal, casa contígua à chácara em frente à Rua Caravelas e defronte ao depósito da “Sal de Frutas Eno”. Moleque de brincar na terra, de tomar muito sol e chuva de verão. E de plantar. Absolutamente nunca fui de caçar passarinhos: sempre abominei estilingue, arapuca e gaiola. Três palavras que afrontam a liberdade.

Nosso belo quintal, nos fundos confrontava com a plantação de pinheiros da chácara. Pinheiros os quais, plantados meio crescidinhos, lá moravam até o fim do ano. Época então em que cediam as covas para a geração subsequente. Era o apelo do Natal.

Eu relembrando, hoje, a chácara, para mim é curioso. De como, àquele tempo distante, eu moleque, não me lembro de ter visto tanto passarinho. Igual sucede hoje, já há bom tempo, cá na Vila Gumercindo. Passarinhos que gastam, literalmente, o dia todo comendo as frutinhas que cuidadosamente ponho na “árvore-restaurante” em frente do sobradinho nosso.

Que cena mais aprazível de ver. A mamãe-sanhaço (ou a sabiá) botando pedacinhos de banana ou mamão no biquinho aflitivamente aberto do filhote — o qual fica batendo as asas, de muita impaciência, deve ser. E um cestinho de girassol para os periquitos-ricos que, de fato, são uma riqueza de graciosos. Às vezes, os barulhentos periquitos até comem de cabeça para baixo, querendo parecer morcegos…

Na chácara, qual era a fauna? Borboletas, de montão! Pudera, o que tinha de flores… Borboletas desde minúsculas até enormes. As de cor laranja, as monarcas — que de fato imperavam. Mariposas, besouros, louva-a-deus, cigarras, joaninhas, marimbondos (de assustar), vaga-lumes, batráquios… Muita andorinha, em revoadas, lembro bem. Taturanas, isso tinha muito. Era uma Vila Mariana de casas com jardins que recendiam a jasmim. E de hibiscos floridos. Já hoje…

Chacareiros que trabalhavam duro, hein! Do finzinho da madrugada à noitinha seguinte. Todos — de que me lembro, sem exceção — todos lusitanos, sim senhoire. Tanto os donos como empregados, portugueses. Pessoas briosas que tinham deixado além-mar as famílias, à espera de dias melhores. No Minho, no Alentejo; em Trás-os-Montes, na Madeira, nos Açores. Portugueses como alguns de meus ascendentes, lado paterno. No caso materno, espanhois. E minha avó paterna, da bela Itália: alguém quer ser mais latino?

A memória às vezes traz à tona uns troços insólitos… Lembro do chacareiro Adelino. Junto de outros, morava num dos barracões da chácara, para economizar aluguel. E desse modo juntar o rico dinheirinho, ora pois. Numa tarde de domingo, eu ouvindo um jogo. Vai o rádio e grita gol: o Adelino, numa fração de segundo, “evolui” de bravo a possesso. Quando o “speaker” grita o gol da vitória, do Corinthians no Sport Lisboa e Benfica. Era o torneio Charles Müller, em 1955, no Pacaembu (cujos detalhes rememorei em jornais de arquivo). Competição que tinha o “Penharól” (assim pronunciado). Que da Penha não era, mas de lugar um pouco distante: Montevidéu. Peñarol, time uruguaio aguerrido, falavam.

Tens fôlego de continuar lendo, contemporâneo(a) de meus 63 anos de Pauliceia? Então, quero lembrar das flores. Verdadeiras rainhas daquele chão. Incontáveis e diversificadas as palmas-de-santa-rita. Lembro de que as batatas (para plantar) eram guardadas — um montão — em sacos de estopa, aguardando ser “desinsetizadas” e “despraguejadas” por borrifos de produtos químicos — tóxicos, pois havia a caveirinha alertando, na embalagem. Não havia essa história de “cuidados com o meio ambiente”. Cravos, roseiras e rosas? Um mar deles todos! De todas as cores cultiváveis. Dálias? Viçosas e enormes. Cujas algumas batatas o moleque até surrupiava (condescendentemente) para plantar no quintal. Terra escura, fértil, de muita minhoca. Eu tinha a mão boa: plantava e pegava, mesmo.

Aquela chácara que ficava encostadinha na minha casa, o dono dela (não dono da terra) como ele não se chamava Manoel, era sr. Joaquim. Tinha também floricultura na região do Arouche: Marquês de Itu. Loja cuja denominação minha memória vacila: acho que era “A Flor de Maio”.

Flores que seguiam para a Marquês de Itu em dois furgões Ford F-1 ano 1948 (relembra para mim a internet, a qual não é daquele tempo, claro). Eu lembro com exatidão: um dos furgões era de cor verde, já o outro… ? Furgões — muitos recordam — comuns nos anos 50 e 60. Utilizados como “assistência pública”, rádio-patrulhas, carros funerários, veículos de entrega em geral, como os da Padaria ABC… Eram tão similares aos Chevrolet que essas duas marcas usavam o mesmo “baú” (que baú não era falado). Aliás, não só os furgões, caminhões pequenos e médios daquela época o que não era Ford era Chevrolet, não? Até o advento de dona Mercedes… Caminhões de “câmbio-seco”, não é mesmo, contemporâneos?

Pois onde é hoje o leito maluco (de trânsito, claro) da 23 de Maio, àquele tempo era um verdadeiro fundo de vale. Pelo qual passava — e continua passando hoje, devidamente entubado — o córrego que deve ser o Itororó. Córrego bem visível àquela época sob a Rua Tutoia. Naquelas chácaras-gêmeas pequenos cursos d’água e lagoinhas (de plantas aquáticas, peixinhos e muitos girinos) emprestavam água — subtraída por pequenos motores a gasolina — para irrigação. A gente de longe podia não só ouvir o pipocar do motorzinho, como ver a bela “chuva” parabólica de irrigação. Lembro bem.

Além de pinheiros, árvores frutíferas e incontáveis flores, as chácaras eram também de horticultura. Agrião, tomate, alface, couve; escarola, cenoura, beterraba e rabanete, pés de limão… Produtos que os chacareiros vendiam — verdura e legumes — fresquinhos, minha senhora. Criação? Acho até que sim, entre aves e ovos. Sem contar que a região era bem servida de feiras livres.

Muito embora à época, eu moleque, percebia Vila Mariana em mudança. Era o adensamento populacional do bairro, prédios que brotavam ali e acolá; a valorização dos imóveis, comentavam entre si os adultos. Um dia, nós todos — moradores e chácaras — haveríamos que sair. Os briosos chacareiros portugueses — havia deles também na Vila Clementino — referiam sobre se transferir para um lugar distante do qual eu não fazia a menor ideia: Parelheiros. “É em Santo Amaro, para lá ainda”, explicavam. Nós, de casa, decolamos para o Jabaquara. A 23 de Maio, a Itororó de Prestes Maia, enfim chegava…

É raro, dias de hoje, eu passar na José Antônio Coelho, isso é. Acho até que nem quero mais fazê-lo mesmo. Entretanto, quando calha de eu cruzar a Bernardino de Campos — bem ali ao lado da estação de metrô — aí então é que eu volto o meu olhar. E olho porque é mais que automático: é inevitável. Um olhar comandado não pelo cérebro: pelo coração. Dirijo meu olhar como se ele fosse um feixe de “laser”: direto no alvo! Para a 23 de Maio, sentido do Ibirapuera. Para o lugar onde outrora minha casinha de quintalzão, de flores, árvores e borboletas.

Como se eu pudesse me rever a mim, então moleque. Correndo, descalço na terra; transpondo pinguelas de troncos; no meio de canteiros — cruzando com borboletas e joaninhas. Mas qual… Da Bernardino, naquele que era o exato lugar da chácara, vejo é desses prediões insossos, que brotaram onde antes eu morava… O lugar de minha infância: até desisto de olhar.

As lembranças, naturalmente, vão se ajeitando nos cantinhos da memória. Pois é o tempo que passa. Como passam os veículos enfurecidos na Avenida, a qual nunca sossega. Melhor dizendo, minhas lembranças da chácara até são como as pétalas das dálias daquele meu quintalzão: por mais que viçosas — é a vida — um dia haveriam que cair e murchar, no chão do passado…