“Americanos — da Vila Carioca”

I – Paulistanos mais ou menos “de meu tempo” — sessentões ou por aí — os quais, como eu, nostálgicos dos ônibus antigos, estão cansados de saber. De que os ônibus elétricos da CMTC começaram a rodar no dia 22/04/1949.

II – É só memorinha de transporte. Pitoresco, talvez. Aquela primeira frota de ônibus elétricos (trólebus ou tróleibus, diziam os jornais) era de trinta carros. Modernos, zero quilômetro, importados. À época, São Paulo produzia carrocerias há tempos — era o caso da Grassi — e também principiando, caso da CAIO. E, em São Caetano, a GMB fazia ônibus “completos” desde os anos 30 — montados que eram sobre chassis de caminhão. Porém, trólebus? Como sabemos, os primeiros nacionais só surgiriam dez anos depois.

III – E daqueles trinta, de 1949, vinte e seis eram americanos (vinte Westinghouse Tramway — Westram — e seis Pullman Standard), muito comuns em cidades americanas do pós-Guerra. Mostram-nos publicações e a internet. Quatro outros trólebus eram ingleses, modelo para exportação: a denominação, uma sigla, BUT. Em 1949 eu tinha um aninho e meio: perdi, pois, a inauguração.

IV – O que de primeiro ouvi falar daqueles trólebus foi através de um funcionário da CMTC, da garagem da Santa Rita. Com o tempo é que vim a fuçar jornais do Arquivo do Estado para melhor me inteirar.

V – Fotos e reportagens da época mostram que quem inaugurou a primeira linha — salvo equívoco, um sábado de manhã — foi Adhemar de Barros. O qual até “dirigiu” (motorista ao lado, claro) o BUT — primeiro ônibus elétrico a sibilar nos fios, no Brasil — linha João Mendes / Praça General Polidoro. É claro, aquele primeiro veículo não restou guardado. Era para estar no Museu.

VI – Os mesmos jornais antigos mostram que os belos trólebus Pullman e BUT desembarcaram, já montadinhos, em Santos. Sem as alavancas. Isso entre 1947 e 1948. A CMTC — então recém-instituída — viria a erguer uma garagem exclusiva para os elétricos. Na Aclimação, como é sabido. Demolida — em lugar de melhor destinada — virou uma (mais uma) praça sem-graça. Era, pois nem tenho passado por lá faz tempo.

VII – Quanto aos trólebus Westram? Uma curiosidade, a razão desta narrativa. O exemplar de “A Gazeta” de 25/03/1948 traz uma foto com pequena legenda. É um Westram. Reluzente, no vermelhão da CMTC, a foto em preto-e-branco. O veículo à porta da “Companhia Studebaker de Automóveis”. Então Rua da Grota Funda, atual Guamiranga — onde depois a VEMAG. Vila Carioca — ou perto dela. Naquele lugar, anos 40, é que eram montados — como o nome da empresa denota — automóveis e caminhões Studebaker, importados dos EUA, não?

VIII – Esclarece a legenda. Aquele elétrico, ali montado, estava prontinho para rodar — coisa que de fato viria a fazer… Dali a um ano! Salvo equívoco, como a garagem ainda não tivera sido erigida, os trólebus então ficavam estacionados, à espera. Na Praça Villaboim. Acho que vi nos jornais.

IX – Aqui o fato curioso. Se — dizia a legenda — então um dos Westram houvera ali sido montado, é sensato concluir. Que os demais Westram também o tenham sido. E o que teria sido coisa pioneira, na indústria de Piratininga de então. Afinal, em termos de Brasil, trólebus eram uma inovação. Trabalho aquele de operários brasileiros. Eram, pois, trólebus americanos — mas de Vila Carioca, não? Pioneirismo de São Paulo.

X – De moleque e pré-adolescente, viajei naqueles trólebus da primeira frota. Lindões, eu os achava. Deslizando pela Avenida Aclimação; pela São Luís, Martins Fontes e Augusta: zzz… De meu primeiro passeio no Jardim da Aclimação — com seis ou sete anos — para também conhecer os elétricos! Minha memória garante: gostei!

XI – Nos anos 60, os chassis dos Westram ainda são reaproveitados. Por vários anos mais. A CMTC, na Santa Rita, os utiliza para montar os “trólebus nacional fabricado pela CMTC”, é o que traz num “letreiro” traseiro, cada carro reformado. Quanto aos Pullman e BUT… Sucata, lógico! Que mais poderia?

XII – Rápidos, confortáveis; bonitos, robustos e silenciosos. Como deles não gostar? Davam tranquinhos no percurso, nada de mais. Acendiam as luzes de freio em inglês: STOP! E advertiam, por cautela, na traseira, o motorista dos anos 50: “Freios de ação rápida”. Bondes e ônibus — acho que ouvi falar — tinham ciúmes daqueles trólebus. Pois com estes, a São Paulo fabril ficava ainda mais charmosa.

XIII – Antes que a alavanca das lembranças se solte da rede de nostalgia, um lampejo. Assim como a faísca azul que espouca nas emendas ou nos desvios da rede aérea. Eu — fração de segundo — me vejo a mim mesmo num daqueles. Vermelhão, rapidão, a frente meio “chanfrada”. Letreiros dúplices: João Mendes / Aclimação. Trólebus que dispara na Conselheiro Furtado, ainda estreita e de paralelepípedos, mão dupla. Sim — zzz… — é ele, sem dúvida: o trólebus americano — de Vila Carioca. O qual, dentre tantos paulistanos, conduz a mim, moleque, todo contente só de nele viajar! Até que dá saudadinha — claro, saudadinha de moleque…

RUBENS CANO DE MEDEIROS