A MOÇA E O EQUILIBRISTA DO YPIRANGA

A.B.

Lembra-me, com nitidez, o ano de 1946. É estranho, mas a lembrança tornou-se fácil porque, sempre que penso nesse ano, me vem à mente um calendário preso à parede de uma sala de minha casa, no Moinho Velho, Ipiranga, com os números 1946. Números que ocupavam todo o espaço do calendário, sem qualquer foto ou desenho. Lembra-me também a facilidade com que eu desenvolvia a leitura e buscava ler tudo o que era possível: revistas em quadrinhos, gibis, almanaques anuais, propagandas em coletivos etc. Não dispunha de fácil acesso a livros, porquanto, em face da crise da segunda grande guerra mundial, meu pai não dispunha de dinheiro para tanto. Não havia instalações de bibliotecas nos bairros, tampouco no grupo escolar que freqüentei: Grupo Escolar Professor José Escobar, então localizado na Rua Greenfed, no Sacomâ – Ipiranga, onde o bonde Fábrica, linha 23, fazia o contorno, vindo pela Rua Silva Bueno e com retorno pela mesma Greenfeld, para voltar à cidade, pela mesma Rua Silva Bueno. Nesse ano de 1946, dois fatos marcantes aconteceram: um acidente e uma reprovação escolar. O acidente ocasionou fratura dos dedos de minha mão direita, com prejuízo aos meus estudos. Garoto, dado a traquinagens, brincava eu, negligentemente, na Rua Américo Samarone, rua de terra batida, próximo ao logradouro então em obras, onde havia grande declive, onde se encontrava em obras a construção da importante rodovia que recebeu o nome de Via Anchieta, inaugurado no ano seguinte, em 1947. Naquele momento senti-me hábil para permanecer em equilíbrio, sobre um tronco grosso de árvore, que ajeitei para rolar ladeira abaixo e eu, muito infantil, imaginava suficiência para manter o equilíbrio. Até que tentei equilibrar-me movimentando as pernas. É desnecessário dizer que o subir no tronco foi tão rápido quanto a queda. Cai violentamente na frente do tronco, cuja velocidade tentei aparar com a mão direita. Fraturas feias e graves. Meu avô, Anselmo, sentado à margem da ladeira, coma uma pequena cesta de vime, vendendo caixinhas de uva passa, observando as obras da futura rodovia, olhou-me e disse “foi feio!!!”. Estava eu acompanhado de meu amigo de brincadeiras de nome Tomás, com mais ou menos sete anos. Tentei retornar à minha casa, mas desfaleci e somente me vem à lembrança que fui socorrido por uma mulher bastante afável, cuja bondade me confortou naquele momento em que fugazmente recobrei a consciência. Desfalecido novamente, mas sei que fui por ela carregado até o momento em que recobrei os sentidos e pude caminhar em direção à minha casa, agora acompanhado tão somente de Tomás. Do local do acidente, início da Rua Rua Américo Samarone (hoje perpendicular da Via Anchieta) até minha casa, na então Rua Dravinha (hoje Rua Bravinha), havia uma distância aproximada de 1.000mts. Fui deixado a uma distância estimada de mais ou menos quinhentos metros de minha casa. Com a mão dolorida e os dedos sujos de terra vermelha, todos tortos e esmagados, tentei não chorar, ainda porque o Tomás não parava de rir. Ao chegar defronte à minha casa, a janela do quarto de meus pais estava aberta e, sobre o batente, minha mãe cantando alegremente, jovem, bela e alegre como sempre, cantava uma música “caipira” e, no ritmo, colocava roupas de cama, para tomar o sol forte da manhã. Ao perceber, por sobre um muro de tijolos rústicos, minha presença, seu pressentimento materno foi traduzido num forte grito e imediata correria em minha direção. Prontamente, minha mãe solicitou à vizinha, Dª Guilhermina, hábil costureira de camisas masculinas, a quem servi por algum tempo pregando botões nas camisas, que vigiasse minha casa a qual permaneceria aberta, com roupas na janelas para tomar sol. Disse minha mãe à ela que, caso demorasse, as roupas podiam ser retiradas da janela que devia ser fechada. Não havia necessidade de trancarem-se as portas da casa ou o portão de entrada, porque meu pai chegaria mais tarde. Naquela época, meu pai era funcionário público e trabalhava no antigo Departamento Nacional do Café, na Vila Carioca, onde, depois, foi instalada a fábrica de autos Vemag. Cuidava ele da plataforma existente no local e na qual os carregadores de sacas de café as transportavam de dentro do armazém para os vagões de carga, fechados, para entrega no porto de Santos, pela ferrovia conhecida como S.P.R. De minha casa até o ponto mais próximo para condução, distava mais ou menos 1.200mts e esse ponto mais próximo era exatamente o lugar onde o bonde Fábrica realizava o contorno, próximo ao Grupo Escolar, para voltar ao Centro da cidade. Fomos nós, eu e minha mãe, em direção ao ponto do bonde, como era conhecido, percurso que nos tomou mais ou menos 25 minutos de caminhada apressada. O destino era o Centro da Cidade, a então conhecida “Central”, no Páteo do Colégio. Central era um ambulatório de emergência, onde era feito o atendimento de todos os que ali compareciam. É bom lembrar que naquela época não existia Previdência Social Federal centralizada, mas sim Caixas (Caixa dos Ferroviários, Caixa dos Comerciários etc.). No ambulatório “Central” fomos recebidos e aguardamos sentados em cadeiras de ferro, com pintura branca esmaltada na qual apareciam falhas enferrujadas e um cheiro forte de éter. Ficou gravado aquele dolorido atendimento em minha mente. A primeira providência, tomada sem qualquer cerimônia, foi a necessária higiene na minha mão, que naquela oportunidade, já estava bastante inflamada. Em uma grande pia esmaltada, com marcas de ferrugem, por causa da água corrente, meus dedos foram colocados sob uma torneira bronzeada e minha mão foi lavada com sabão, sem qualquer cuidado com as fraturas. A dor foi intensa até senti-la na medula; somente foi compensada por outra tão intensa, mas em outra parte do corpo. Uma atendente, não se sabe se médica ou enfermeira, abaixou um pouco minhas calças curtas, presas por um suspensório de pano, e aplicou uma injeção, com agulha grossa, de conteúdo oleoso e forte odor de cânfora. A dor foi tão intensa que as fraturas foram esquecidas, naquele momento em que, concomitantemente, aplicaram-se ataduras para manter a higiene dos dedos, impiedosamente lavados com água e sabão. Liberados, eu e minha mãe, seguimos para outro local apropriado para engessamento: Na Penha de França. Tentei andar, mas a dor era tão intensa que refletia no local da aplicação e nos dedos latejando. Enfim fomos encaminhado a outro atendimento, na Penha, na Av. Celso Garcia, e para lá rumamos eu e minha mãe. O Bonde para a Penha partia da Praça Clóvis Bevilacqua e descia a Av. Rangel Pestana. Era por volta das 14h. O acidente aconteceu por volta das 09.00h. e eu já sentia, além da dor na mão, na perna que estava endurecida, muita fome. Mas não havia tempo para alimentação, tampouco havia dinheiro para tanto. O trajeto foi demorado, dado que o bonde apresentou defeito elétrico e ficou parado, seguido de grande fila de outros bondes no mesmo sentido. Estávamos num lugar conhecido por Chácara do Marengo, mais ou menos onde hoje encontra-se instalado o prédio que era conhecido por Juizado de Menores. Não havia outra solução senão a de caminhar, até o nosso destino. Caminhada dolorida. A perna claudicava e mão se elevava, mas as lágrimas desciam. Enfim chegamos ao atendimento de fraturas. Aguardamos mais ou menos duas horas – com muita fome – até que as ataduras foram retiradas e com algum cuidado a mão foi preparada para aplicação de gase molhado para aderência de gesso. Minha mão direita, até a altura do cotovelo, foi imobilizada. Fomos liberados. O relógio marcava mais ou menos 17.30 h. às 1900, na Praça João Mendes, onde hoje está o Forum João Mendes Jr., tomamos o bonde Fabrica, em direção ao Sacomã. Chegamos ao destino por volta de 20.00. Mais alguns minutos de caminhada até minha casa, à noite, atravessando-se um lugar ermo, no qual havia o conhecido “castelo do Samarone” à esquerda e a lagoa do Clube Atlético Ypiranga, à direita. Em casa, muito cansado, aguardei minha mãe preparar uma deliciosa sopa, por ela denominada minestrone, forrando meu estômago, para uma merecida noite de sono. Em momento algum percebi qualquer reclamação, admoestação ou reprimenda, por parte da minha mãe. Que Deus a abençoe. De minha parte, restou a lembrança do falso equilibrista e da bela senhora que me socorreu.