Pra quem nunca andou de bonde, ah!, taí uma chance!

             “Gilda”, no passado da Pauliceia: linda, nas telas;
charmoso, nos trilhos

Paulistano de mim contemporâneo – prestes a setentão – lembrará. Tão
vivamente quanto lembro, de certos belos bondes, que sobressaíam na
paisagem.

Moleque, meados dos anos 50, era-me curioso. Eu nem sabia, mas eles
tinham vindo de Nova York! Em vez de duas portas, como os camarões,
quatro! Duas, iguais, porém opostas, no meio do comprimento, uma de
cada lado. E duas outras, alternadas, em cada extremidade. Frente e
traseira, o bonde, idênticas! As portas do lado esquerdo – ah! – não
abriam! Só lá em Nova York!

Um dia explicaram-me. As duas portas centrais – lá – eram de saída.
Donde o tal bonde ter sido conhecido como CENTEX – “Central Exit”,
então. Para mim, era o bonde “Avenida Angélica”.

E que originariamente captavam a eletricidade – não por alavancas de
contato – mas por um terceiro trilho situado entre os outros dois.
Isto é, de sob o asfalto novaiorquino, a energia.

Naquele 1947 em que nasci – vim a saber muitíssimo depois – os Centex,
um total de setenta e cinco, tendo desembarcado em Santos, de
sucessivas levas, subiram a Serra nos trens da São Paulo Railway, até
um tal de “desvio da Light”, na estação Ipiranga – vi de jornais.

Dali, rebocados por outros bondes, foram ter às oficinas da Light, na
Lavapés, lugar em que se lhes adaptaram alavancas de contato – e
outros reparos – para a incipiente CMTC.

Embora de segunda-mão, eram modernos e mais bonitos, em relação aos
outros bondes. Melhor iluminados por dentro. Em vez de bancos de
madeira – qual o quê! – assentos de palhinha trançada – bonde cheio da
charme, aquele!

Na pintura originária, traziam uma enorme letra B, maiúscula – branca,
sobre fundo vermelho, ao lado do farol. Disseram-me, B de Broadway –
onde haviam circulado alguns anos. Que os podemos ver, ainda hoje – na
internet...

Meu pai, operário daquelas oficinas lighteanas, sem me explicar,
chamava aquele bonde – paulistaníssimo, de Nova York – chamava-o de
“GÍRDA”, trocando L por R... Por que seria, hein?

Também vim a saber. Teria sido tão carinhosa quão “sutil” homenagem.
De nós, paulistanos, para com a beleza de Rita Hayworth – a personagem
Gilda do filme de grande sucesso, à época. “Gilda”, que eu chamava de
“o bonde Avenida Angélica”!

Encaixava certinho, São Paulo! A Gilda, bela, nas telas de cinemas. O
Gilda, cheio de charme, nos trilhos da CMTC!

Trilhos paulistanos que, mesmo hoje cobertos pelo asfalto, por certo –
de todos os bondes – morrem de saudade!

Por: Rubens Cano de Medeiros

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