Então, a maior lâmpada de São Paulo – na Lavapés – ela (se) apagou...

Então, a maior lâmpada de São Paulo – na Lavapés – ela (se) apagou...

        Meu pai era paulistano do Glicério. Das cercanias da pequena elevação
no final da curtinha Rua Espírita, o “morro do piolho”, diziam. Por 35
anos, operário de serviços braçais, das oficinas da Lavapés, da
originariamente The São Paulo Tramway, Light and Power. Que, como
sabemos, passou os bondes vermelhos – carros abertos e camarões –
todinhos! – para a então incipiente CMTC – em 1947, ano em que também
eu nasci.

O Dionísio de Medeiros participou – mesmo que pouco significativo –
dos trabalhos de adaptação para a CMTC, dos 75 bondes (de segunda-mão)
que a Municipalidade houvera comprado lá na Broadway, reformados no
Cambuci: os elegantes Gilda!

Lembro nítido! Por muitos anos, quem passasse na Lavapés, à frente do
portãozão da Light, deparava com trilhos que remanesciam aos anos 20 e
30, de quando os bondes eram operados pelo polvo canadense.

Pois eu, moleque – lá pelos dez anos, e que hoje contabilizo sete
vezes mais – lembro que todo 15 de novembro a Light promovia uma
festona! É! Ali! Naquelas oficinas majestosas, então um marco da
paisagem fabril-manufatureira de Piratininga!

Congraçamento anual: operariado do Cambuci e burocratas da Xavier de
Toledo, imponente prédio que, como shopping, escapou de eventual
demolição. Famílias lighteanas afluíam e o evento consumia o dia todo
– eu, moleque, cansava, voltávamos antes.

Ainda me lembro da banda de música; competições entre times
uniformizados, jogos de bocha e de malha – tradições entre operários
hoje creio que varridas até quase da memória da Cidade.

Embora moleque, impressionava a dimensão daquela belíssima arquitetura
fabril, berço também dos bondes, e lugar onde a Light montava os
postes da iluminação urbana – primeiro de eucalipto, depois de ferro e
de cimento... Um colosso!

Recente, na Lavapés, de ônibus, tristemente vislumbrei aquele
megaterreno arrasado, não obstante árvores esparsas... Tudo demolido!
Uma terceira bomba atômica – parece – no Glicério! Quem testemunhou o
colosso, aos olhos custa acreditar!

Não obstante a realidade especulativo-imobiliária, o fato é que
perante a memória fabril-manufatureira de Piratininga, a implacável
erosão das picaretas foi como – condizente com a cronologia – que se
apagasse uma última lâmpada – de filamento, como as que iluminavam as
ruas dos tempos dos bondes.

Por: Rubens Cano de Medeiros

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