"Nostalgia paulistana, empacotadinha e amarradinha, alojada no coração"

"Nostalgia paulistana, empacotadinha e amarradinha, alojada no coração"

Pré-adolescente, magrelo e espigado, obtenho o primeiro empreguinho
com a “carteira de menor”, lembro; na verdade, carnês de contribuição
previdenciária, ao então I.A.P.I., meu caso, industriário.

Meia-duzinha de molecões, auxiliares de expedição do Laboratório
Xavier, da Rua Tamandaré. Entregávamos remédios, medicamentos ali
produzidos, para farmácias paulistanas, e de algumas cidades
metropolitanas.

E que experiência! Possibilitou-me descortinar horizontes da
Pauliceia, enquanto propiciava alguma experiência na iniciação ao
trabalho.

Nas mãos ou sob o braço, embrulhos amarrados com barbante, que não
raro resolviam desabrochar no trajeto! Semeando o chão, de caquinhos
de vidro... e drágeas!

Ah, lembro! Uma epopeia! A pé; de bonde e ônibus – metrô? Era sonho,
coisa do futuro! Ou, então – para mim novidade, à época, “trens de
subúrbio”, falava-se; linhas hoje tentáculos da atual CPTM. Trens,
naquele tempo, cheios! Hoje, não: superlotados!

Alegremente, eu constatava. Na Luz, trens inox! Americanos, prateados:
montados na Mafersa, da Lapa, plaquinhas diziam. Era a
Santos-a-Jundiaí.

Na Júlio Prestes, trens verdes, Hitachi, japoneses – era a Sorocabana,
para Osasco. Enquanto na Roosevelt – havia quem referisse “Estação do
Norte” – trens meio azuis; alguns, ingleses, neles constava. Central
do Brasil: linhas tronco e variante, ambas para Mogi.

Esses, todos, trens elétricos – mas... na Rua João Teodoro... Lembro que...

Surpresa! Estaçãozinha qual de Interior! Cantareira! Ainda de
remanescentes marias-fumaças que resfolegavam rumo à zona norte,
bifurcando na estação Areial, para Tremembé e Guarulhos! Eu diria
hoje, o “trenzinho do caipira”, do Villa-Lobos!

De pitoresco – mais? Ah! Os aromas fabris! Chaminés que exalavam
trabalho! Vila Romana e Canindé, recendiam gostoso a biscoito!
Belenzinho e Mooca? “Eta cafezinho... BOM!”, musiquinha no rádio! Já
no “balão” do bonde Brooklin, adorável aroma de chocolate! Um sonho...
de valsa! Lacta, claro!

Entrementes, no Brás, ah... “Lembrar, deixem-me lembrar...” Por perto
do Largo da Concórdia – onde, uns dez anos antes, Chico Alves entoara,
por derradeiro, a última canção... Nauseabundo odor, repugnava-me a
origem dele: fábrica de cigarros! Uma São Paulo que não me orgulhava –
a tabagista.

Pois naqueles meus treze anos... No desconforto dos sempre cheios
Santo Amaro, bonde 101 e ônibus 79... Igualmente nos até folclóricos 5
e 6 – Estações, linhas opostas e de batedores de carteira – que nunca
vi, unzinho deles... Nossas entregas – qual São Paulo – não podiam
parar!

Hoje, eu, quase setentão... Daqueles inícios dos anos 60, sim, trago
alguminha nostalgia! Bem embrulhadinha e amarrada com barbantes.
Guardada no coração. E “cabou”!

 

Por: Rubens Cano de Medeiros

Você está aqui: Lembranças "Nostalgia paulistana, empacotadinha e amarradinha, alojada no coração"