Eterna inquietação paulistana

Eterna inquietação paulistana

Em se tratando da Paulicéia, há mais nostálgico que os bondes? Belos
bondes vermelhos! Os mais bonitos de todo Brasil. Para paulistanos
sexagenários, meu caso, creio que não. Os bondes imiscuíram-se na
paisagem da Cidade, principalmente entre os anos 30 e 60 — testemunhas
fiéis da metamorfose "cidade/metrópole", com apoio na vocação fabril
de Piratininga. "São Paulo não pode parar!", exultavam os paulistanos.
"Maior parque industrial da América Latina", ostentavam os próprios
bondes. Bondes ainda da Light.
Pois as fábricas (como sabemos) eram tantas que — muitos se lembrarão
— havia até uma linha de bonde com este nome: 20 – Fábrica. Que se
destinava a uma região de grande concentração de fábricas: Ipiranga
(na verdade, Sacomã), passando pelo Cambuci. Só que o Ipiranga —
entendo que por mero ciúme — tinha também uma linha, "própria": 4 –
Ipiranga (que, antes da reforma ortográfica de 1942, era Ypiranga,
como o clube C. A. Ypiranga).
Provável ciúme. Pois se a Silva Bueno orgulhosamente acolhia os
trilhos do Fábrica (nos dois sentidos), por que então a Bom Pastor não
haveria de ter o seu bonde, o da linha 4? Ciúme. É certo que, saindo
ambos da João Mendes, seguiam (claro, o Vila Prudente no encalço...) —
como que num casamento — juntos. Através de Rua da Glória, Lavapés,
Largo do Cambuci, Independência; pela Dom Pedro, lindamente arborizada
— uma alameda, tal qual nos dias de hoje.
Por certo, estava decretado: "Juntas: até que a Tabor as separe!".
Pois ali, bifurcavam. Um novo encontro? Na João Mendes.
Algum (outro) nostálgico de bondes poderá argumentar: todavia, outras
linhas também compartilhavam de mesmos caminhos. E (quase) para mesmo
destino. Sim, é certo: Vila Maria e Alto da Vila Maria; Pinheiros e
Vila Madalena; Santo Amaro e seus "auxiliares"; Penha e Parque São
Jorge; Domingos de Morais, Bosque e São Judas. Só que seus respectivos
pontos finais — digamos assim — não ficavam no "mesmo chão", como os
daquelas duas. É que ambas findavam no mesmo Ipiranga, no mesmo "berço
da Independência". Que tenha sido assim...
Já que a palavra é usada "a torto e a direito", tenho até uma "teoria"
(sic). Aquelas duas, tradicionais linhas ipiranguistas, sua causa
mortis foi esse próprio ciúme: uma da outra. Foi isso. Tanto que a
CMTC, chateada e triste, aos poucos, acabou com todas as demais... E
além: para não permitir o clamor dos trilhos — pela ressurreição dos
bondes — impôs à Prefeitura: "Asfalto por sobre!". À revelia, porém,
daqueles trilhos do Bosque. Os quais, na Tiquatira, cansados da
opressão "asfáltica", hoje insistem em vir à tona. Para um bonde que,
entretanto, nunca mais! Um inútil apelo...
Já quem folhear jornais de arquivo, constatará que carência de
transporte público sempre foi paulistanamente crônico. Desde os anos
30. Filas, demora, descaso, improvisação... Por volta de 1955, eu,
moleque, ainda recordo. Nós, passageiros do dia-a-dia, usávamos dum
recurso, para poder garantir lugar (sentados), se a sorte ajudasse.
Alguns até lembrarão.
Era que os bondes para Vila Mariana — que tomávamos —, à hora do rush,
saíam já lotados. Da mesma João Mendes (só que outro abrigo. Aquele
que, ainda hoje em pé, descaracterizado), um afluxo de pessoas
impressionante.
À época, restavam alguns carros abertos. Com reboque. Linha 23 –
Domingos de Morais. Que ia até a Praça da Árvore, a qual alguns ainda
chamavam de "Primeira Seção". Pois descendo a Avenida Liberdade, com
destino final à João Mendes, os bondes culminavam por parar num último
ponto: Praça da Liberdade, onde hoje é o Metrô (havia uma arvorezona,
enorme!). Aqueles de nós que temiam não poder garantir um lugarzinho
lá na João Mendes, então embarcávamos na parada. Com complacência (é
claro) de motorneiro e cobrador. Sem ter que pagar passagem por esse
trechinho final. Era o trechinho em que os bondes entravam na Rodrigo
Silva, passando por Praça Carlos Gomes. Do Cine Jóia. Garantido!
Bonde 23 passava em frente a dois saudosos cines vila-marianenses:
Cruzeiro (do lindo letreiro de néon: azul ou verde?) e Phenix. Nos
quais, moleque, eu adorava (e adoraria hoje, se pudesse rever...) os
documentários de Primo Carbonari! Muitas vezes, mais que o filme.
Documentários, para mim, ao menos, muito bonitos: quando mostravam a
Cidade, estradas, aeroportos, o Interior. Por outro lado, até de
entediar, quando mostravam políticos em campanha ou inauguração de
lojas... Primo Carbonari — paulistano — é parte importante, por sua
atividade, da memória da Paulicéia. Lamentável esquecimento. Para mim,
saudade em preto-e-branco. As vaias? Burrice.
É a dinâmica da vida. Não parar! A Praça da Árvore continua com poucas
árvores, como à época. Só que hoje, como se sabe, referência de grande
comércio. Sinônimo de uma "região", mais que praça. O bonde 23 virou
sucata. Ou cinzas. Aquele derradeiro, de Santo Amaro, de março de
1968, foi só formalidade. Já eram bondes-fantasmas, perto da
extrema-unção. Desde quando passaram a sair do Biológico. Tanto que,
do vermelho vigoroso, alaranjaram! Empalideceram: desbotaram. Até —
definitivamente — que morressem... E ingratidão (paulistana): só três
foram guardados. Nenhum igual aos da linha 23. Os cines de bairros
seguiram-lhes os passos: sucumbiram.
Metamorfose: eterna inquietação paulistana. Muitas vezes, metamorfose
devastadora, implacável até. São Paulo que não se detém. Por nada.
Nunca. Sobrepõe-se a si própria.
Não obstante, fidelíssima a seu destino, rumo eterno. NON DUCOR DUCO!

 


Rubens Cano de Medeiros

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