Um cachorro, que nem “tinha”! (cicatriz no braço)

Um cachorro, que nem “tinha”! (cicatriz no braço)

Por: Rubens Cano de Medeiros

Bem, minhas primeiras historinhas, de quando eu ainda detinha a posse
da Facit “manual” (como se, por comparação, as máquinas “elétricas”
IBM ou Olivetti “manuais” também não eram...), eu então datilografava
os textos. “Minutas”, que um de meus dois filhos em seguida passava
para a internet. Pelo menos, duas pessoas liam: eu e o co-piloto.

Foi que primeiro conheci o site VIVASP, do Juliano Spyer, via Rádio
Eldorado (belo nome, que mudou). Depois, descobri os sites SPMC e
“Independência ou Morte”. Todos, louváveis. Todos, guardiães da
memória paulistana. Todos, coração de São Paulo.

No inexorável transcorrer do tempo, as reminiscências eu continuei
lembrando. E escrevendo – não mais dedilhando a Facit, tão
companheira! Ingrato, dela me desfiz. Arrepender? Sim, mas... “Inês é
morta”: nunca mais máquina de escrever! Agora é tarde...

“Ah, não tenho mesmo mais o que escrever”, menti para comigo mesmo.
“Ah, nem tenho a quem escrever”, tentei de novo me enganar. Bem, de
fato o site VIVASP silenciou; afortunadamente, o site SPMC continua
marchando. Hoje, quando calha a mim alguma tola recordação, a minuta
agora é via caneta! Daí, o co-piloto bota “ela” no ar! No ar, como os
DC-3 de minha infância...

Toda esta conversa mole para eu justificar que não simpatizo com
teclados de micros. Não bastando eu sequer enxergar os minusculíssimos
caracteres de pontuação, não tolero as teclas molinhas,
sensibilíssimas que, ao meu duro toque, o texto desliza, escorrega
assim, ó: “llleeeemmbrrrrooo bbeeeemmm”... Relou o dedo, “dispara”
qual metralhadora (da Revolução de 32)! Volta pra mim, Facit!

Destreza e paciência, quem tem, parabéns – facilitam-nos a vida, né? A
primeira, deve tê-la tido, provavelmente, o sujeito – quando “caiu”
(pousou?), um domingo à tarde (crepúsculo?) quase no quintal de minha
casa (na tangente geométrica). Bom, se é que não tenha sido mesmo um
acaso. Paciência, isso ele teve, muita! Por ter logrado livrar-se –
praticamente sozinho – do emaranhado de cordinhas e galhos – santa
paciência!

Eu tinha de nove para dez anos, era a São Paulo de 1957. “Destreza”,
por certo, eu nem sabia o que vinha a ser. Já “paciência”, muitos
adultos mostravam o que era... justamente não ter! Contigo terá
ocorrido igual, contemporâneo (a)?

São Paulo, a de 1957... Nem de longe, hein! Nem de longe
imaginar-se-ia que os então “nem tantos assim”, os prédios altos nos
bairros, acabariam resultando na absurda concentração – na esmagadora
maioria, feiosos e sem graça – que determinou o perfil de São Paulo.
Só que aquela São Paulo, que jornais elevavam a “metrópole” – A
Gazeta, Correio Paulistano, Estadão, as Folhas, Diários
(Associadas)... – São Paulo era ainda bem fabril, de muitas chaminés e
bairros operários, sabe-se, não? Catumbi, Belém, Brás, Mooca,
Ipiranga, Santo Amaro, Água Branca, Barra Funda...

Entre meus nove e dez anos, eis-nos – eu e meus pais – naquela casinha
“de aluguel”, de quintalzão, grande. Rua José Antônio Coelho, 736.
Hoje (e já faz bom tempo), no lugar – sob outro número – um desses
enormes prediões. Certamente junto dos alicerces, um ou outro tijolo
da casinha de outrora – longínqua outrora...

Era uma Vila Mariana charmosa – ainda – a dos anos 50. Lá onde eu
morava, moradores alguns (muitos?) “incorporavam” o trecho ao
território do Paraíso. Talvez não só pela proximidade com o que, de
fato, era “Paraíso”: a Brahma, o Colégio Ypiranga, a Santa Generosa, a
Catedral Ortodoxa... Mas também por conta do ponto final do ônibus
48-Paraíso, Pelotas com Amâncio, bar do “seu” Pasqual. Certo, era
quase Ibirapuera – Vila Mariana ainda, que teimosos garantiam:
“Pa-ra-í-so!”. Batiam o pé!

E, muitos lembram, na São Paulo de 1957, comemoração (bela) do jubileu
de prata da Revolução de 32, não? “Chuva de prata”, esplendor! – ainda
me lembro. Em vários pontos da Cidade, de dia ou à noite (sob fachos
de luz dos holofotes do Exército!). “Chuva” de milhares e milhares de
triangulinhos – “papel-alumínio”, teriam sido, eles? – lançados de
igualmente prateados DC-3, portas abertas! Inesquecivelmente lindo,
para meus olhos de moleque! Nos triangulinhos – iniciativa do
industrial Pignatari, não? – o brasão de São Paulo!

Ah, lembro bem! Meu pai juntou um montão deles para mim! Dos quais nem
guardei unzinho, ingratidão! A mesma, que repeti com a Facit.
“Ingratidão”: trago isso no peito?

Nos nove para dez anos, certamente – já não lembro exato – eu era
moleque de calça curta e suspensório. Acho também (lembro menos ainda)
que de corte de cabelo, falavam “americano”...

Julho de 1957, um domingo já noitinha, o vespertino... Mulher
elegante, fina e charmosa que era, recendendo a jasmim, nos quintais,
Vila Mariana – nas noitinhas a dentro – ostentava como que um infinito
colar de pérolas (madrepérolas, ao menos). De muitas “voltas” (digo,
ruas), luzinhas brilhantes, as lâmpadas de filamento, nas ruas como o
longo retão da José Antônio Coelho – que eu, moleque, comprazia de ver
acenderem! As contas do brilhante colar... Vila Mariana: do ônibus 11,
bonde 27. Cruzavam o Paraíso.

“Paraíso”, também, era-me o imenso quintalzão da pequena casinha.
Terra, árvores, plantas e um gramadão! Gramado, para minha mãe,
quaradouro das roupas lavadas no tanque; para a molecadinha do
“entorno”, campinho! (entorno: corte na primeira sílaba, e ela dá duas
com valor de uma – em torno).

Quintal que era adjacente a uma face de colossal chácara (na verdade
várias, geminadas), um horizonte ilimitado que, na ausência de prédios
altos no “entorno”, deixava vislumbrar Moema, Ibirapuera, Jardim
Paulista, até quase Itaim-Bibi.

Naquele domingo à noitinha, eu e meus pais... Na certa, retorno de
algum passeio, casa de parentes – alguma lonjura que a precariedade e
morosidade da condução tornava ainda mais longe... Era coisa de
bonde+ônibus+ônibus+bonde, a “cansar” de vista! E há, por certo, quem
reclame do metrô!

Velhinho! Foi só passarmos pelo portão de madeira, da rua... Girar a
tramela... Adentrar a escuridão – só iluminada pelo luar... “Que é
isso, hein?” – pensamos nós três ao mesmo tempo! Pois lá no fundão –
dava para ver – por detrás da ameixeira, das bananeiras... Esquisito,
sô! “Que é isso, hein?”.

Era que, por cima de um dos pinheiros – dos muitos que havia, em
fileiras paralelas, um a igual distância do outro – pinheiros de
Natal, cultivados na chácara, encostadinho no nosso quintal...
Pinheiros “de Natal”.

Por cima de um dos pinheiros, iluminado pelo luar, à primeira visão,
um enorme “lençol” branco – um monte de cordinhas enroscadas no
pinheiro – e um camarada um tanto dependurado, um tanto já no chão!
Cheguei perto, ele inteirinho mas “assustado”: “Tem cachorro, aqui,
moleque? Tem cachorro?”. Tinha não. Sossegou. Sossegou, o...
paraquedista!

(*) nota, observação. Cachorro, tinha o Osvaldo, nosso vizinho, irmão
do Dionísio (meu pai) – ambos, paulistanos do Glicério. Era um
cachorro “lulu”, ranheta e bravinho (talvez porque vivia acorrentado,
coitado). Quando eu menor ainda – ah!, infeliz ideia – “chegaram-me”
perto dele, o “Gaúcho” (o cachorro). “Fiu, fiu, fiu!”, alguém acordou
o bicho: imediatamente, ele me tacou uma mordida, antebraço esquerdo:
tenho a cicatriz até hoje – faz mais de sessenta anos! Se chorei?
Não... mais que bastante! Confiro vez ou outra: a cicatriz ainda
resta, à flor da pele. É o que me restou, fisicamente, da Vila Mariana
de infância: retrato de uma mordida.

Voltando à vaca-fria. Moço, cachorro não tem. Mesmo porque – não
contei ao paraquedista – aquele que me mordera nem tinha como chegar
aos pinheiros. Nem latindo, estava. Mas para furar meu antebraço...
Sujeitinho nervoso, o tal “Gaúcho”!

Lembro, sim. Que o pinheiro nem quebrou. Mas entortou, curvou – vi no
dia seguinte. Paciência, o paraquedista teve! No escuro, hein!
Livrar-se das cordas, dos galhos... Só ele – “suzinho”, diziam alguns
– até que chegaram dois ou três colegas do ar. Eu... “fui para
dentro”, ordenou o general – digo, minha mãe. Não deu repercussão.
Ninguém, da rua, entrou na chácara: soube-se depois. Nem jornal, nem
polícia. Só testemunhamos, eu, vagalumes (que brilhavam) e grilos
(cri-cri-cri...). As flores da chácara, elas dormiam. Idem,
borboletas.

Moleque de então, fiquei depois sabendo. Como parte da comemoração do
jubileu de 32, paraquedistas civis saltaram. Também de luzidios
prateados DC-3 (da Cruzeiro do Sul, se não me engano) – para lograr
pousarem nas proximidades do Obelisco, não longe de onde eu morava. Na
tardinha do domingo.

Capricho eólico, o vento deve ter desgarrado aquele. E, senão por
acaso, com destreza – “manobrando” as cordas – ele deve ter desviado
de fios e telhados para, relativa segurança, pousar na chácara, que
obviamente notara. Assim, a imensa chácara de “seu” Joaquim ganhou um
pinheiro torto!

Ironia do destino. Aquele salto, homenagem aos paulistas das
trincheiras, deixou o pinheiro curvado – como um soldado
constitucionalista, o peso do fuzil e petrechos, às costas... O
episódio foi irônico. Para o moleque, inusitadíssimo. Para o “Gaúcho”,
uma chance (de morder outro) perdida.

Dias seguintes, um ou outro moleque me interroga, colhe algum
depoimento de mim. O “intalianinho” é um deles.

- Ô, “iscuita”: caiu “uma” “paraqueda” na tua casa?!

- Ô se caiu!!!

- Foi nas “telha” que caiu?

- Quase que foi!

- “Intão” foi nas “pranta”?

- No pinheiro. O “home” enroscou tudo!

- Quebrou as “perna”, veio ambulância?

- Quase morreu, mas “nóis” “tiremo” ele.

- Puxa vida, hein!

- Eu nem deixei o cachorro morder ele! (não o Gaúcho, mas o outro, que
nem “tinha”).

FIM. Ufa!

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