Corinthians x Ponte, no morro do Piolho (bonde vazio)

Corinthians x Ponte, no morro do Piolho (bonde vazio)

Por: Rubens Cano de Medeiros.

Meu pai, ele era paulistano. Do Glicério. Eu, anos 50, moleque, lembro
de que ele me falava. Que, ele moleque, primeira década do século
passado, brincava no terrão do chamado “morro do Piolho” – no final da
curta Rua Espírita: Cambuci ou Liberdade? Lembro também que cheguei a
ver o que sobrou do “morro”, quando ali já urbanizado.

Aquela São Paulo, que abrigou a infância de paulistanos, como Dionísio
(meu pai), era a São Paulo consolidando o perfil manufatureiro de
Piratininga. Que bem referia Zé Vasconcelos, muitos lembram a citação:
“Metade da população de São Paulo é de italianos. A outra metade,
descendentes de italianos”. Minha “vó”, mãe de meu pai, ela era
italiana.

Pois aquela minha “vó” era o que eu trago de sangue ítalo-paulistano.
Branquinha, como o próprio nome, Bianca, olhos azuis, herança do povo
normando. Já os pais de minha mãe, eles me deram o sangue
hispânico-paulistano. Assim, na verdade – em vez de paulistano – eu
era para ter nascido, sei lá, um lugar inter-penínsulas: a ibérica e a
itálica.

Eu, hoje transcorrendo os 67, ainda ando muito a pé. Carro, nem tenho
(dirigir, detesto). Eu, que até tive táxi, não por muito tempo, mas
dirigi (Fusquinha). Condução? Último caso, caso contrário vou a pé.
Eu, que de moleque, adorava ônibus (e bonde), só simpatizo é com
metrô. Rápido. Seguro. Espaçoso. Vazio (nas madrugadas).

Meu pai praticamente trabalhou só na Light – moleque, eu ouvia adultos
referirem: “o polvo canadense”! O Dionísio sempre foi operário das
imponentes “oficinas do Cambuci” – 35 anos, ininterruptos, all-weather
– sol ou chuva.

Ele saía de casa ainda de madrugada, ia a pé. Voltava no anoitecer – a
pé – à hora da “Ave-Maria” do Pedro Geraldo Costa. A pé, all-weather.
Que eu me lembro, sim.

Ele até me falava, lembro, eu moleque. Que naqueles anos 50, a CMTC
garantia gratuidade nos bondes aos operários lighteanos do Cambuci.
Operários que, como outros, iam trabalhar já de macacão azul, de brim
(Alpargatas). Terá sido? Talvez alguma cláusula, talvez alguma
“cortesia”. Afinal, antes de 1947, os operários lighteanos é que
cuidavam dos bondes: no Cambuci; nas estações de Vila Mariana, Brás e
Glete. Mas meu pai optava por caminhar.

Aquele ir-e-vir que o Dionísio exercitava, velhinho, olha! José
Antônio Coelho (“tudinha”), Domingos de Morais (um quarteirão só) e
Vergueiro, dois. Tupinambás (que mudaram o nome), Apeninos, Pires da
Mota, Bueno de Andrade... corta aqui, dobra acolá... Ufa, Lavapés! Bem
uns quatro quilômetros. À tardinha: igual, sentido anti-horário.

Só mesmo ele – um coração de ferro – pulmões de aço! – e solados de
pneumático nos pés, para aguentar a maratona diária... E, para
“descansar” (carregando pedras), aos domingos de manhã e algum
feriado, ele caminhava – mais! – levando-me a passear...

Eu, moleque, nunca reclamei da nossa vidinha proletária. Ao contrário,
até, eu não via a hora de fazer – sempre os mesmos – aqueles
passeios... De pobre.

Era minha São Paulo “de lazer”. Domingos de manhã. Ibirapuera ou
Congonhas (picolé da Kibon. Ou pirulito). Jardim da Aclimação (andar
de ônibus elétricos, ainda então relativa “novidade”); Viaduto do Chá
(e o Santa Ifigênia, que “diferente”!), o túnel Nove de Julho
(luzinhas deslizando na penumbra, no deslizar do ônibus...) –
Anhangabaú, algum desfile cívico. Mappin, Sears? Brinquedos! Só...
olhar.

“Aquele ali” – meu pai, para mim – “é o Banco do Estado!” – que depois
virou “prédio do Banespa”. “O mais alto, hein!” – eu: “de São Paulo?”
– “Do Brasil!” – eu: e do mundo? – “Ah, não sei, não...”.

Será?, eu torcia! Até que, fotografia de jornal – A Gazeta, Folhas,
Estadão – meu orgulhinho de moleque paulistano “desabou” – do
quadragésimo andar do Altino Arantes! Era a foto do Empire States
Building – de quem o “nosso” parecia... filhote!

Passeiozinhos outros que rendiam pipoca ou algodão-doce... Matinê no
Cine Leblon – algum documentário que mostrava Sabres contra Migs,
duelo de jatos! Era, falavam, a Guerra da Coreia – esta, ainda, uma
só. E – ah! – o Pacaembu! Que moleques diziam “Paicambu”: não “só”
moleques...

Eu, aquele moleque de uns cinco, seis anos, fui ao Pacaembu
“aproximadamente” uma vez! “Aproximado”, porque fui “próximo”, nem
entrei! Foi do lado de fora...

Belíssima arquitetura, a ainda originária, o majestoso “próprio da
Municipalidade”, falava (acho) Pedro Luís. Concha acústica (eu,
moleque: “Quê?”), placar manual – placas manejadas por funcionários,
letras substituíveis – não? – algarismos (placar), de zero a... nove.
“Tobogã”, depois: que troço insosso, burro e feioso. Zero!

Edson Leite, narrando: “Placaar noo Pacaembuuu!” – aguçava a
expectativa – de quem ligou o rádio “agora”, e nem sabe o “score”!

Contemporâneo(a) daquela minha infância. Tu lembras, melhor até.
Domingo de jogo! A multidão! O tropel que descia “correndo”! Quanta
gente! Desciam dos bondes, na Angélica (o 36 e o Avenidas), ruas
Goiás, depois Itápolis... Para “gáudio” (termo da época) do sossego do
aristocrático bairro... “Esporte das multidões”.

Ah, “alembro”, sim, São Paulo! Era um radiante sábado, até, de manhã.
Meu pai me leva ao Pacaembu: bonde 36, o “Gilda”, da linha Avenida
Angélica – que lindão, para o moleque! Descemos com o tropel! “Trop,
trop, trop!”.

Meu pai sabia. Lá perto do ginásio, um pedação do muro (do estádio),
desmoronado: “buracão” – entrar, não dava. Mas olhar... Em termos: era
“longe” do campo. Mal e mal, dava para ver os jogadores, uma das
traves.

Um montão de espectadores, “durões”, sem grana para o ingresso. Eu,
moleque, mal achava algum ângulo... Corinthians e Ponte, lembro isso!
Quanto “tava”? Quem sabia? Rádio de pilha nem existia! 0 x 0? 1 x 1? 2
x 1? “Só Deus sabe!” – pudera, vendo “de cima”!

Só se ouvia isto: “Ahhh!...”; “Uuf, uuuh!...”; “Pá! Pum! Pó-pó-pó!” –
fogos! Esse, foi do “Pequeno Polegar”! Cruzamento do “Gerente”! Viria
a confirmar “A Gazeta Esportiva”.

Dia seguinte, nós. A molecada, no terrão do meu quintal. Bola de gude,
ou jogo de “bafo” (figurinhas). Senão, bate-bola no gramado
(quaradouro). Minha mãe: “Para logo que vou estender roupa!”...

Um molequinho me interroga. Eu deponho. Os demais, nenhum lavra termo:
ouvem, só.
- Cê foi no Paicambu, é?
- Fui co meu pai! Na artibancada!
- Quem qui jogou?
- Corinthians e Ponte.
- Quanto qui foi?
- Sei não.
- Ué? Cê não “távo” lá?
- Saímo antes. Pegar o bonde, vazio...

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