A “Cróvis”, do Charutinho...

A “Cróvis”, do Charutinho...

Por: Rubens Cano de Medeiros.

                                          A “Cróvis”, do Charutinho...
(Adoniran)

Ao longo dos anos, nós, paulistanos, acabamos por acostumar – com
naturalidade – com a mudança até drástica da paisagem. Por conta de
grandes obras. O que não causa comoção. Foi o caso da praça Clóvis
Beviláqua, que hoje pouco conta no cenário urbano – é só olhar no
mapa.
Não basta meu discurso. É ver no mapa de guia de ruas. Ou mesmo na
Internet. O que é a Clóvis hoje. E, então, comparar com o que era. Uma
foto que vi na Internet, de 1956! Meu tempinho de nove anos... E
lembro bem, daquela Clóvis. Que era um terminal de linhas urbanas de
ônibus. Para as zonas leste e sudeste. Só o Anhangabaú, à época, tinha
tanto ônibus igualmente. E ninguém falava “terminal”. E nem mesmo o
“Beviláqua”: Clóvis, já bastava. Inconfundível.
O douto Palácio da Justiça, imponente – de corpo e alma. Antes, ele se
situava “na frente” da Clóvis. No topo, para quem olhasse lá de baixo,
da Rua do Carmo. Hoje, é só ver no mapa. Com as obras do metrô, e a
implantação da gigantesca nova Praça da Sé, o belíssimo prédio
judicante mudou de lugar – sem sair do lugar! Pois passou a se
localizar... na Praça da Sé! A qual, engolindo a Felipe de Oliveira,
espichou – onde antes era a Clóvis – até a Anita Garibaldi, que por
sua vez virou Avenida.
Eu me lembro bem. A nova Praça da Sé quando entregue à população. O
então prefeito Olavo Setúbal – emérito, sabemos – ele declarou. Que
São Paulo estava ganhando um “Central Park”, alusão ao de Nova York.
Bem, se semelhança havia, era só a localização: tal qual o “de lá”,
era de localização central. “Central Park”? A nova praça?
A antiga Praça Clóvis. Enorme quadrilátero, cercada de ônibus por
todos os lados. Filas de passageiros que adentravam pelos jardins,
retângulos simétricos de vegetação baixinha. Eu, de moleque, vivi na
pele esse infortúnio. A demora da condução. Não necessariamente na
Clóvis: bondes e ônibus que demoravam uma eternidade, na João Mendes,
no Cambuci, no Belém... No Ipiranga, na Vila Prudente...
Árvores, naquela velha Clóvis Beviláqua, só no contorno. No
“perímetro”, as calçadas. Lembro – se é que estou correto. Que quando
Adhemar de Barros prefeito (1957/61), a Clóvis ganhou um grande
viveiro de passarinhos. E roseiras. Romantismo que sucumbiu perante a
fuligem de tanto monóxido de carbono...
E os bondes da Clóvis? Ofegantes (os motores), da subidona da Rangel,
desde a Companhia de Gás na Avenida Mercúrio, os bondes tomavam fôlego
para então fazer o “balão” de retorno à zona leste. Roberto Simonsen,
Wenceslau Brás e a curtíssima Irmã Simpliciana. Os bondes paravam num
cantinho da Clóvis.
Assim foi. Com a chegada do metrô àquelas paragens, também “chegou a
hora”. Da velha Clóvis Beviláqua. Emergindo gigantesca do grande
quarteirão demolido (a partir da pioneira implosão, Mendes Caldeira),
a nova Praça da Sé “devorou” a velha Clóvis. A qual restou nada mais
que um ínfimo calçadão, três ou quatro arvorezonas só. Um chão de
mosaicos, da saída do metrô até os pés do Poupatempo. Ou seja, um
“espólio” de praça...
Sabemos que um glóbulo branco, um corpo estranho no caminho dele, o
leucócito o envolve e o “digere”: fagocitose. A nova Praça da Sé fez o
mesmo com a Clóvis: fagocitose arquitetônica. E então – nesse esforço
conjugado de engenharia, arquitetura e biologia – era uma vez a
“Cróvis”, como falava o inesquecível Charutinho, nas “Histórias das
Malocas”. E também outros tantos cidadãos. Paulistanos, é “craro”...

Você está aqui: Lembranças A “Cróvis”, do Charutinho...