Clarins! Castanholas! Olé: Espanha em Santo André!

Clarins! Castanholas! Olé: Espanha em Santo André!

Rubens Cano de Medeiros
                                  "Clarins! Castanholas! Olé: Espanha em
Santo André!"

Sim, eu me lembro. Todavia, com não toda exatidão. Afinal, fatos de há
sessenta anos! Desembarquei na Maternidade São Paulo, penúltima semana
do ano: 1947. Por conta do calendário escolar de então, quando foi
para ingressar no “primário”, ficou para “o outro ano”. Só que eu já
entrei razoavelmente alfabetizado.

Minha memória, hoje, foge do “padrão Fifa”, dentre as memórias. Nem
mesmo é “uma Brastemp”. Mas ainda dá para o gasto. Algumas
reminiscências. Lembro que, antes do “Marechal Floriano” (grupo
escolar, Rua Dona Júlia), eu tinha feito escala na pré-escola
municipal de então. Precursores das atuais EMEIs. Certa manhã, de não
lembro quando, minha mãe me matriculava...

Entrei no “parquinho” infantil da Rua Curitiba. Bem defronte à
Tumiaru. O 48-Paraíso passava à porta. Vila Mariana mas, para ser
Ibirapuera, era só ir pouco à frente. Oficialmente, desde Celso Pitta,
ali é Distrito de Moema! Moema, que fica mais longe de lá... que Vila
Mariana. Moema, cuja explosão imobiliária e comercial detonou o nome
(belo) “Indianópolis”, não? Do bonde 102-Indianópolis. Hoje, ele seria
VLT. A linha? 102... “Moema”, claro.

Pois aos cinco anos eu lia (e escrevia) o suficiente para fuçar
jornais e revistas – como O Cruzeiro. Até o “romance” em “quadrinhos”
(quase), chamado “Grande Hotel” – minha mãe pegava emprestado. Eu
gostava do jornal A Gazeta!

Minha mãe, de maneira “empírica”, foi me alfabetizando. Eu “lia” o
jornal. Letras vermelhas, maiúsculas, o título, não? A GAZETA!
Jornais, todos, à época, em preto-e-branco. Raros suplementos ou
anúncios de algumas cores. Muitos lembrarão. À esquerda do título, o
“reloginho” circular. Marcava (sempre) 2:30 (da tarde, subtendido).
Hora da tiragem. À direita, uma face da moeda (um cruzeiro?), preço do
exemplar, nas bancas. Logo abaixo do título, “Fundação Cásper Líbero”.
Ué? Não era a avenida?

Minha mãe... Bem, ela sintonizava era a Rádio Gazeta. No nosso rádio
grandão, de válvulas; carcaça de madeira, ponteiro do “dial” vermelho.
Lembro bem. Todo meio-dia, o uivo: “Uóóóóó...”, uns 30 segundos?
Meio-dia, em ponto! Eu não perdia um! O moleque sabia: Rádio Gazeta; A
Gazeta; A “Esportiva”! Tudo era São Silvestre! Na Cásper Líbero...

O mesmo vento que frequentemente me trazia o fragor de motores
aeronáuticos roncando em Congonhas, tenho para mim que o mesmo vento,
invertendo a rota, trazia também o uivo interminável, do topo do
prédio de A Gazeta! Se tiver sido imaginação... Nada mais real!
“Uóóóóó...”. O relógio do Largo São Bento confirmava: doze horas na
Pauliceia!

Princípios dos anos 50, minha mãe gostava de certo programa da Gazeta.
Eu, pegava carona. Músicas orquestradas. “Instrumentais”, falavam. Ou
eram “clássicas”? Certeza não tenho mais. A sirene de minha memória
ficou afônica: calou.

Tá-tá-tá! Outro programa! Nunca esqueci! Outra, a emissora. Era
(diariamente?) à tardinha. Hablado em español, a locutora de voz
fininha. “Rádio Clube de Santo André”! “Tá-tá-tá! Tléc, tléc, tléc!
Tóc, tóc, tóc, tóc!” – clarins, castanholas e sapateado: “ôle, ôle,
ôle – Olé!”. “Relicário Espanhol”, bradava a voz feminina, ibérica da
gema! De Santo André – mas bem poderia ser Sevilha, Granada, Madri!
Músicas de “gitaneria”, dizia-me a Isabel Cano (de Medeiros),
paulista, filha de espanhóis. Mouros, ciganos, ibéricos. Todos, em 78
rotações. Músicas vibrantes!

Fragmentos, esparsos, de memória, de mim, à época, cinco a sete anos.
Grudados na mente, como a lagartixa que gruda na parede. Felizmente
(ufa!), não guardei a música toda – um trechinho (cuja melodia fico
devendo): “Me llamo Rodriguez, por parte de madre. Me llamo Fernandez,
por parte de padre! My nombre es Maria – Maria del Carmo – del Carmo
Rodriguez – Rodriguez Fernandez!”... E a saraivada de castanholas e
sapateado! Eu, quando moleque, era até comum a pergunta, do sobrenome
(mal aportuguesado) “Cano”: “Ocê é neto de ispanhór?”. Além de
português e italiano, sim! Olé!

Meu pai, ele, sim, é que trazia, consigo, todo dia. O jornal A Gazeta.
“Tudos” dias, como falávamos, aquela molecada daquele trecho, Vila
Mariana – quase Paraíso. Onde eu morava.

Era que meu pai retornava do trabalho. Das oficinas da Light, no
Lavapés. Cambuci, perto da Liberdade, não? E eu, no “vespertino” do
dia, eu postado no portãozinho de madeira – de tramela, por dentro –
eu ficava a aguardar os dois. Meu pai e A Gazeta. Que ele trazia.
Lembro bem: sob o braço. Então, luzes de filamento – espetadas, na
horizontal dos postes da mesma Light (alguns mais antigos, de ferro) –
luzes acendiam “em série”... Milionésimos de segundo, sequencialmente,
uma após outra. Era que a noite vinha descendo. Junto com meu pai e A
Gazeta: descendo a rua... Enquanto no velho (nosso) rádio, Pedro
Geraldo Costa falava: a “Hora da Ave Maria”. Era quase hora da janta.
Hora de descanso dos operários. Como o Dionísio de Medeiros –
paulistano, do Glicério. A sirene de A Gazeta respeitava o descanso de
todos.

Deve ter sido – até mesmo desde eu moleque. Que “herdei” de meus pais.
O hábito saudável de muito caminhar. Sempre (até hoje) exercitei o tal
de “ir-e-vir”, a pé. Certo período, com a colaboração dos então
“inesgotáveis” Vulcabras 752. Pretos e marrons – de amarrar. Hoje,
sirvo-me do neologismo pisante: “sapatênis”. E (ainda) ando, ando,
ando... como um fusquinha!

Nos vinte anos em que – meus pais e esta testemunha – moramos na então
romântica Vila Mariana “da garoa”, meu pai... Infalível, era! Ele ia a
pé, trabalhar, de madrugada. Voltava andando, à tardinha. Hábito.
Salutar costume. Da José Antônio Coelho (quase Paraíso) até a Lavapés.
Via Apeninos e Pires da Mota. Ele dizia que, se quisesse, poderia de
bonde: como operário ligtheano, a CMTC não cobrava. Como os bondes
nasceram Light... Dionísio tinha saúde de ferro – galvanizado! Ele que
me trazia A Gazeta, era.

Por sinal (qualquer deles, àquele tempo, da DST: vermelho, amarelo ou
verde), paulistanos hão de lembrar. Na São Paulo dos anos 50,
andava-se muito! Era comum, no dia a dia. E não só nos “arrabaldes”.
Era a (eterna) carência de transporte público. Que os bondes e ônibus
não contemplavam todos rincões paulistanos, claro. Só de lembrar, dá
cansaço.

Porém, hoje... Ah! Ônibus articulados! Bi! Tri! E, nos horizontes,
surge um novo! O tal de “BRT”! Meu tempinho de moleque? Se houve BRT,
claro, foi que “Busão Rodava (a)Trasado”! “Busão”: que termo
rastaquera! Feioso. Que mau aportuguesamento. “Busão”...

Por aqui mesmo. Vila Gumercindo (ou Distrito do Cursino...), que me
acolhe há décadas. Diziam moradores “mais antigos”, de quando aqui
aportei. Que, anos 40 e 50, a turma “camelava”, velhinho! Condução?
Era sofrível. E distante. Bonde? Ou só o Bosque ou, “mais pior”, o
Ipiranga, lá (longíssimo) no “Padre Chico”! Ou a condução da distante
Domingos de Morais, a uns dois quilômetros... Ruas de terra, sem luz!
Se chovia... Ah!, lembrei. Tinha o heroico ônibus “22”, era verdade!
Em 1955, surgiu um eletrizante: o Gentil de Moura, perto até. “Já
passou o Gentil?” – “Não. Demoura.”. Vi uma foto da inauguração: A
Gazeta!

Eu, moleque paulistano. O que prendia minha atenção, aquele jornal?
Era um jornalzão, cheio de assuntos interessantes. Fotos? Em profusão!
Muito nítidas, algumas grandonas. Eram “reclames” – de brinquedos, da
Viação Cometa... Panorâmicas belas da “metrópole” Pauliceia; de outras
cidades... A edição do IV Centenário, meu chapa! Era, o jornal, para o
moleque, como o Primo Carbonari! Das telas do Cine Cruzeiro. Do
Phenix. Do Cine Estrela!

Bem, já aos domingos... Não saía A Gazeta. Como a sirene, ela
emudecia, nas bancas. Meu pai comprava o Diário de São Paulo. O de
hoje? Não. O irmão “associado” do Diário da Noite. O de hoje, é só
rescaldo de outro jornal tradicional, Diário Popular. Aquele Diário
tinha suplemento, colorido! Nele, quadrinhos! Lembro do “Príncipe
Valente”; “Sobrinhos do Capitão”; a dupla “Mutt e Jeff”. Talvez
“Pinduca”, moleque caladinho. Quem sabe, o “Gato Félix”... Mas eu
preferia A Gazeta que, de tirinha, era só o Professor Nimbus, não?

Velhinho, certo dia... Aconteceu uma, que... Tive até que –
involuntariamente – deixar A Gazeta de lado! Ficou, ela, para “the day
after”! Quando minha mãe me levou para “fazer” dilatação de pupilas..
Dilatar? Escancarar! Falavam os “espíqueres” na Rádio Record: “O gol
estava escancarado! Sem o guarda-valas!”. E, ainda assim, o “cabecinha
de ouro” perdeu! Também: pulou de pupilas fechadas! Ahhh... Acabou
zero a zero.

Então, mais à tardinha, minha mãe me “conduziu”. Clínica “de olhos”
até bem conhecida, de nome... (?) – Ah!, lembrei! Rua Condessa de São
Joaquim! Logo depois da Conde de São Joaquim (marido?). Não tão longe
da Rua... São Joaquim! Na qual plantaram a estação São Joaquim! Pá!
Com tanto Joaquim, a Liberdade só podia mesmo ser bairro... oriental!
Não é, Manuel?

No regresso, à noitinha... Eu, pupilonas dilatadas! Angústia, sô!
Visão borrada! Transtorno. E A Gazeta? Eu via chuviscos e rabiscos.
Lembro, hoje, com a mesma aflição daquele dia (noite)! Demorava voltar
ao normal – 24 horas, ou mais. Pois na Av. Liberdade... Ponto do bonde
à frente do “Professorado”... No letreiro do bonde, era “Santo Amaro”.
Ou “Domingos de Morais”. Que eu “lia” assim, ó: “ ////////// “...
“Manhê! Quando passa, o rabisco?” – “Amanhã”. Passou. Depois de.

Ó passado paulistano: o certo é que nunca me esqueci do jornal A
Gazeta. Pena que descontinuou. Tal qual a respectiva sirene,
silenciou! Mas... incrível! Para mim, é instintivo! Quando Helena
Maria me pede (na verdade, manda!) para buscar o jornal... Eu,
instintivamente: “Ei, seu Zé! Tem A Gazeta?”. O semblante mudo do
jornaleiro exaspera: “ ****** !”.

Mas enfim... Prezado contemporâneo paulistano, de meus “meia-meia” e
meio. Ao contrário de mim: guardaste tu alguma hoje rara “A Gazeta”? É
sério?! O quê? A do IV Centenário? Nossa! “Me empresta ela pra mim?”,
diríamos, alguns moleques de sangue ítalo-vilamarianense, nos anos 50.
Prometo (mas não confies!) devolver (não confies!)!

E prometo mais. Não recortar – como eu fazia, de moleque. Fotos e
reclames que eu guardava na caixa de (sem) sapatos. Eu, reler A
Gazeta? Quero, sim! E é só para prover a nostalgia: de eternos breves
momentos, de emoção.

Melhor, gente boa: agradeço a ti, mas guarda teu exemplar. Com o mesmo
zelo de até então. É, sem muito exagero, até uma “relíquia”,
preciosidade. Um documento. Um testemunho. Da melhor tradição do
jornalismo de Piratininga. Jornal que “arregalava os olhos” da
curiosidade do moleque. Melhor, “dilatava” as pupilas...

Ufa, para concluir! Minha nostalgia acerca do passado paulistano...
Reconheço (e dou fé): torna-me um cara chato, seu! Essa mania...
In-sis-tir! “Tem A Gazeta?”. Ora, não tenho como: é-me involuntário!
“Ei, seu Zé! Tem A Gazeta?”. Quem sabe, hein? Ato contínuo,
respondendo em silêncio, o olhar feroz: “ ////////// ! ****** ! ~~~~~~
!”. Bom, São Paulo, “sacumé”: água mole em pedra dura... Melhor deixar
quieto!

“A Gazeta”! Página virada. É a própria rotativa – a da vida. Vida em
preto-e-branco. Vida colorida. FIM! Olé!

Você está aqui: Lembranças Clarins! Castanholas! Olé: Espanha em Santo André!