O bonde abençoado

O bonde abençoado

Por: Rubens Moitinho

08.09.12

De como, bem antes da chegada do metrô, trilhos outros passavam à porta de São Judas Tadeu — com o beneplácito do vigário...

 

A historinha não deixa de ser memória paulistana. Afinal, é uma referência a uma tradição da Paulicéia: certa linha de bondes. E, pegando carona, dizer algo mais. Bem, propriamente à época do fato eu tinha de 7 para 8 anos: do acontecimento em si, não me recordo. E nem mesmo se meus pais chegaram a comentar comigo. Contudo, quando de moleque, viajei muitas vezes naqueles bondes: “66 – São Judas Tadeu”. Assim, recorro a um jornal de arquivo para “puxar a meada”...

“Diário Popular”, 9/4/1955 (página 22): “Vão circular os bondes para o Jabaquara. Finalmente estão sendo colocados os fios elétricos da linha de bondes para o Jabaquara. Os trilhos há muito tinham sido assentados...”. Creio que antes de o bonde circular, os moradores da região só contavam com duas linhas de ônibus. Da CMTC: 12 – Jabaquara e 13 – São Judas Tadeu. Pois o bonde 23 parava bem antes, na Praça da Árvore. As duas linhas de ônibus partiam da Praça da Sé. À época, o letreiro dos ônibus que se dirigiam para o Centro era “Cidade”: pois “Cidade” era como que sinônimo de Centro... “Vou à Cidade fazer compras”.

Do mesmo jornal, 29/4/1955 (1ª página) — com uma pequena foto de um bonde aberto, em frente à igreja, em meio à multidão: “Inaugurada a linha de bondes 66. Ontem foi um dia festivo para a população do Jabaquara. Regozijaram os moradores daquele bairro com a inauguração da linha de bondes 66... O prefeito compareceu ao ato inaugural, viajando no primeiro veículo a trafegar nos trilhos... O bonde recebeu a bênção do vigário da igreja... Foi armado um palanque à frente da igreja, de onde vários oradores discursaram, entre os quais o chefe do Executivo municipal, um morador do bairro e o vigário...”. O bonde abençoado!

Linha de uns 13 km, talvez. Que partia da João Mendes. Do “abrigo”, defronte à Padaria Santa Teresa (abrigo ainda em pé, feiosamente descaracterizado).

Rota do 66: Liberdade, Vergueiro. Domingos de Morais — daqui em diante, a partir da Sena Madureira, em pista exclusiva; Avenida Jabaquara (idem), Igreja de São Judas Tadeu, “balão” entre Irerê, Guaiós e Ceci, coisa assim. Onde eu descia, de quando ia passear para ver os aviões na cabeceira do Jabaquara. Até a Praça da Árvore o caminho era o mesmo que o da linha 23.

Linha 66 (abençoada!), a qual também viria a servir para alunos de várias escolas: Marechal Floriano, Liceu Pasteur (embora esta no ponto final do 27), Arquidiocesano e Almirante Barroso; para freqüentadores de sessões de cinema dos cines Cruzeiro, Phenix, do Sabará e do Nilo — por que não do Estrela? Para numerosíssimos devotos de São Judas Tadeu, de cada dia 28: afinal, a igreja era a referência da linha, não? Ou, também, para espectadores e torcedores do futebol do Estrela da Saúde... Condução dos trabalhadores da indústria e do comércio da região. Como, por exemplo, os operários daquela fabricona que se situava na Avenida Jabaquara. Quase que defronte à Indianópolis e ao lado do Almirante Barroso. Prédios enormes que ocupavam perto de um quarteirão — e cuja maquinaria dava para ouvir da rua! E ostentava a grande fábrica um “emblema”: um grande círculo (acho que verde) com um W dentro. Para mim, então moleque, que fabricona seria ela?

Pois vim a saber, de quando com 11 anos, trabalhava numa farmácia. Eu via aquele mesmo “emblema” — o da fabricona. Em alto relevo, exteriormente, no fundo de frascos de vidro. Como nos de penicilina, da “Laborterápica Bristol”, de Santo Amaro. Explicaram-me: “É W de Wheaton”. Uma vidraria! Que com o tempo se mudou de lá. Vidrinhos aqueles com anelzinho metálico (um lacre de vedação) danados para nos cortar o dedo...

Interessante — se é que é mesmo — hoje, quando São Paulo quase perdeu as indústrias de grande porte, hoje vidrarias remanescem: Cisper, Nadir Figueiredo e Santa Marina. Outrora o coração fabril do País, o atual parque industrial paulistano é tão menor que bem mereceria aqueles dizeres, próprios das embalagens de vidro: “Cuidado, frágil!”.

Bonde 66 e os outros bondes: como é de conhecimento (dos que os conheceram), os bondes foram — acima de tudo — a condução do trabalhador, especialmente do operário. Pois as fábricas do Brás, do Belém, da Mooca; de Vila Maria, do Catumbi, do Tatuapé e da Penha de França; da Barra Funda, do Bom Retiro, da Casa Verde; da Água Branca, da Pompéia, da Lapa, do Anastácio; de Vila Mariana, do Cambuci, do Ipiranga, do Sacomã, de Vila Prudente; de Indianópolis e para os lados de Santo Amaro... Todas as fábricas paulistanas puderam testemunhar: bonde era “reduto” de operário.

São Paulo manufatureira — a Paulicéia das chaminés — dos anos 30 a 50! Aquela São Paulo que era bem a cara daquele (famoso) “desenhinho”: um logotipo que eu, moleque, via, por exemplo, nas latas de óleo ou de banha. Que comprávamos nos “mercadinhos”. Da marca Matarazzo. O desenho era como que um semicírculo (creio que de fundo vermelho, lembram?). Encimado pela sigla “I.R.F.M.”: galpões industriais com chaminés vomitando fumaça — o progresso de São Paulo! E um trenzinho passando à frente. Coisa que lembrava mesmo as gigantescas instalações da Água Branca ou as do Brás... Indústrias Matarazzo, de cuja história não pode abrir mão a epopéia da indústria — não só a paulista, como a nacional, não? “Fides, Honor, Labor”...

O certo é que — para a linha 66 — aquela “bênção” durou só uns 10 anos: cessou a validade. Segundo li, a linha parou em 66. Não me lembro, também. E não logrei achar reportagem alguma. Década de 60: agonia dos já então veteranos bondes paulistanos. Naquela década, ano após ano, progressivamente as linhas de bonde vêm sendo suprimidas. Até o último alento, de março de 1968: Santo Amaro. Não obstante tradicionais — românticos e belos — paulistaníssimos de alma, os bondes haviam se tornado anacrônicos e obsoletos, infelizmente. E muitas das vezes, nada “abençoados”: lerdos, atrapalhavam o tráfego quando no contrafluxo de certas vias; originavam filas enormes de quando um percalço sobre os trilhos. E sucumbiam ante a concorrência das linhas de ônibus, que proliferavam. Sim, era triste, mas o bonde se tornara um transtorno: fim de linha...

São Paulo, já metrópole, de há muito vinha exigindo mais que “transporte coletivo”: o metrô — que começava a concretizar. Um sonho de “transporte de massa”, finalmente! Não obstante, o ônibus continuar, ainda hoje, como a espinha-dorsal... Em matéria de bondes, São Paulo houvera estagnado. Não chegaram a vir para nós, nos anos 50, bondes mais modernos. Como aqueles que eram vistos em filmes americanos: os “Presidential cars”. De Los Angeles, Chicago, Boston, Pittsbourgh, Filadélfia. Ou Toronto. Bem que São Paulo teria feito jus.

Vez por outra, passo pela Domingos de Morais. À porta do “grupo escolar” Marechal Floriano. No qual ingressei, começo de 1954, no então “curso primário”. Confluência de Domingos com Dona Júlia. Que, atualmente, nem de longe lembram aqueles dias...

De quando — anos 50 — com paciência e sempre sorrindo, o guarda-civil Sr. Osvaldo nos atravessava. A nós, molecada e pais. Com segurança e serenidade. Parando o trânsito (e o velho bonde 66). Não havia semáforo: era no apito. Braços esticados. Quepe e luvas brancos. Fardamento azul. Invariavelmente sorrindo, o guarda...

Penso que, naqueles momentos, até ele — o bonde 66 — se mostrava paciente conosco (sorridente, não lembro): aguardando também a criançada cruzar a via. Aproveitava ele, o bonde, para descansar. Breves minutinhos. Pulmões resfolegando. O coração (também chamado de compressor de ar) pulsando: tuc, tuc, tuc... Quem sabe um pouco curvado — aquele “peso nas costas”: muitos passageiros nos bancos transversais, lustrosos de verniz; outros tantos em pé, no estribo. Dava para suportar? Doidinho, o bonde, para enfim descansar. No fim da noite, ali pertinho, na estação de bondes. Para depois tudo recomeçar...

O velho bonde “abençoado” — assim como os demais — enfim desapareceu. Na sucata. De baixo de marreta e serrote. Impiedosamente. Foi a maneira de como a Cidade “recompensou” décadas de serviços... Razoável ingratidão. Progresso tem coração?

No final da vida, o 66 era carro fechado: reformados que foram aqueles originários abertos. Não me lembro do derradeiro, o bonde da última viagem para São Judas.

Não sei, é claro, se terá sido assim. Mas pudesse ter sido eu o motorneiro... Daquela que foi a derradeira viagem, do bonde 66. Do “abrigo” da João Mendes até a igreja. Gostaria de ter conduzido o velho bonde, ele se sentindo orgulhoso. Por ter prestado relevante serviço aos paulistanos, por décadas! Embora — nessa última viagem — o bonde lúcido do triste fim que o aguardava (a sucata), que se sentisse bem mais que mera ferragem e madeira rolantes, superados pelo tempo... Que se sentisse orgulhoso do carinho de muitos dos paulistanos que — não obstante reconhecerem a imperiosidade do progresso — guardariam todos nossos bondes no coração da cidade... “66 – São Judas, Adeus!”.

E naquela mesma madrugada, na escuridão do silêncio dos pátios de estacionamento das três estações de bondes paulistanas — Brás, Glete e Vila Mariana — todos os bondes, sem mesmo uma "honrosa" exceção de um que não, compungidos com a supressão da linha abençoada, todos aqueles bondes remanescentes baixaram-se as alavancas de contato dos fios. Emudecendo motores e compressores por exatos sessenta segundos, vertendo lágrimas sobre os trilhos, lágrimas de óleo e graxa, como aos bondes caberia. Foi assim que, devidamente adaptado ao futebol, também assim foi que surgiu o "minuto de silêncio". Pelo menos consta. FIM!

Você está aqui: Lembranças O bonde abençoado