“Era uma vez uma jamanta”

Claro! Não fui somente eu, à época, o único paulistaninho a dedicar
afeição: moleques outros, igualmente.

No distante 1956 – em cujo epílogo vim a inteirar meus nove aninhos –
eu gostava, um gostar só por gostar, dos bondes e ônibus vermelhões,
da CMTC. De quando surgiram uns inusitados coletivos.

Lembro, sim. Então moleque, eu procurava memorizar, no coração,
detalhes que pudesse, dos diferentes modelos de carrocerias. Cujas
plaquetinhas de identificação, que traziam, eram quase sempre CAIO –
da Rua Guaiaúna – ou Grassi, de Vila Leopoldina. Lugares paulistanos
que à época eu sequer supunha onde...

Rugidos de motores... Que liberavam a fumaceira, de combustão
carregada do forte cheiro – diziam assim, alguns – “óleo cru”, em vez
de falar “diesel”. Eu gostava, de ambos: barulho e “fragrância”...

Ah, sempre vinha um! “Sabe-tudo”, que dizia, que o Twin e os GM Coach
da linha 36 – Lapa, eles eram “câmbio automático” – e se eu sabia...
Eu?! O que era “câmbio”, hein?

Me intrigava, a inscrição – em todos os coletivos da CMTC. Bem à
frente, interiormente, no alto, acima do assento do motorista, muitos
lembrarão: “Reclamações – Rua Martins Fontes, 230 – telefone tal.” Era
eu subir num, ela tava lá!

Eu, reclamar da CMTC? Nunca! Ora, eu adorava andar de bonde e ônibus –
como, pois, reclamar? Soube, um dia: era o endereço – o “escritório”,
digamos assim, da Companhia.

Pois daquele inusitado ônibus de 1956, assim de pronto não lembro
mesmo, do surgimento deles. Mas, claro, do então gigantesco coletivo,
diferente dos convencionais, sim: era o papa-fila!

Um veículo semi-trailer, que o popular batizou de “jamanta”! Enorme
reboque de rodas traseiras, montado sobre plataforma – ou chassis –
Massari, indicava uma plaquetinha. E tracionado pelo indefectível,
caminhão curtinho e barulhento, FENEMÊ – que os do ramo chamavam de
“cavalo-mecânico”! Uma novidade, o gigante!

Jornais do Arquivo do Estado reforçam minha titubeante memória. Há 13
de março de 1956, quando prefeito Lino de Matos, a CMTC apresentou ao
público, expostos no Anhangabaú, inauguralmente, alguns dos cinquenta
papa-filas – que se puseram a rodar pelo Centro, às dez horas. Como eu
por certo gostaria de lá ter estado!

Diziam mais, os velhos noticiosos da hemeroteca. Enormes veículos,
para a época, podiam carregar até 150 paulistanos – entre sentados e
em pé – estes, certamente “amassados” como... sardinhas em lata!

Duraram pouco, aqueles grandões. Lerdos, difíceis do dobrar esquinas;
trambolhos, nos congestionamentos; barulhentos, desgastante para o
motorista – isolado, sozinho, na boleia... “Era uma vez a jamanta”...

Lembro! Moleque e pré-adolescente, ao menos neles viajei nas linhas
Osasco e 12-Jabaquara. Empoleirado nos primeiros assentos, amplo
parabrisas, bem sobre o engate, sacolejando qual uma velocíssima...
tartaruga! Eu adorava.

Minhas nostálgicas lembranças – o cavalo e seu reboque – como um Davi
arrastando um Golias...

 

Por: Rubens Cano de Medeiros

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