“Lembrança à flor da pele”

Por: Rubens Cano de Medeiros

Nosso sobradinho, revestido de cerâmica amarelinha, nos anos 80 ele
abrigou o florescer de minha família, eu e minha mulher, mais nossos
dois filhos. Só eu, nele me refugio nada menos que há meio século –
desde que houvéramos vindo, eu e meus pais.

Um sobradinho daqueles à antiga, dos anos 50. Cuja porta da sala dá de
cara para a rua. Tudo que é vendedor, e pedinte, toca a campainha
frequentemente.

Dias destes, porém, quem tocou... Os meus setenta anos – só para me
lembrar, logo virão, para se hospedar... em mim, claro, por um ano.

De quando viemos para esta ainda aprazível Vila Gumercindo em 1968 –
cujo nome oficial desde anos 90 é Distrito do Cursino – ninguém fala,
nem eu – a extensa avenida ainda devia ser a “Estrada” do Cursino.

Lembro, sim! Lia nos jornais, meus quatorze ou quinze anos. Bairros à
época chamados de “arrabaldes”, vias eram “estradas”, conservadas por
um departamento de “estradas de rodagem”, do Município – o então
DERMU.

De condução, lá ia eu fazer entregas, por exemplo, a farmácias da
Estrada do Mandi. Ou da Estrada Velha São Paulo – Rio, que lindo nome
era! Na de Sapopemba, na de São João Clímaco, na de Itapecerica...
Tudo “estrada”!

Lembro! Para Osasco, bairro pré-autonomia, ia de papa-fila Fenemê, da
CMTC, via a Estrada Velha de Itu... De Pinheiros à Lapa, via Diógenes
Ribeiro de Lima, ex-Estrada das Boiadas. E etc., outras estradas...

Voltando à vaca fria, o sobradinho. Aqui, a rua faz uma curva de quase
noventa graus. A calçada é mui larga, tal que fiz um pequeno – mas bem
cuidado, florido – jardinzinho. E plantei, rente à guia, uma árvore –
vim a saber –, um “dedaleiro”, o nome.

“Dedaleiro”, por quê? As corolas das belas flores – que atraem os
colibris – parecem um dedal – daqueles que mães e esposas utilizam
para um arremate de costura...

Árvore, esta, alegria – minha, e dos sabiás, periquitinhos, sanhaços e
borboletas – que vêm nela buscar mamão, bananinhas e água fresquinha
que, com prazer, lhes franqueio!

Como se eu voltasse no tempo, minha Vila Mariana, de moleque – nosso
quintalzão de terra e gramado, árvores frutíferas e dálias que eu
plantava – para multicoloridas borboletas...

“Quintal”? Ah! Um outro – o de nosso contíguo vizinho... Meus cinco,
seis anos – se lembro! Trago dele – daquela Vila Mariana – uma
lembrança – à flor da pele! Indelével lembrança...

Era que o branquito lulu dormia, naquele quintal, acorrentado, na
casinha – acho, até, que roncava...

“É bonzinho”, dizia um – “Não faz nada...”, mas – ah! – esse “um” me
aproximou do “luluzinho”! Pra quê!

Rapaz! O lulu virou lobo! Acordou e, num salto, me tacou a mordidaça!
No meu fininho antebraço esquerdo – quase pegou uma veia! Se chorei?
Deveras!

Olha, até hoje, eu... Involuntariamente, a cicatrizinha não escapa de
meu campo visual: é eterna, enquanto dura – tênue e desbotadinha – a
sombra de meu trauma vilamarianense!

O lulu, “muy amigo”, nem tinha raiva. Eu? Tenho-a. Até hoje!
Cicatrizinha trazida de Vila Mariana: menos mal que Vila Gumercindo
não repetiu – ainda!

Bocarras sem focinheira – aqui, nas calçadas, não escasseiam.
Portanto... velhinhos – e velhinhas – que somos, acautelemo-nos!

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