Obrigado, Boechat

            Morre Ricardo Eugênio Boechat, “o melhor âncora do Brasil” (título oferecido a ele por seu colega José Luiz Datena), em mais uma tragédia que marcou o início de 2019.

Para mim, jornalista em formação, Boechat era um espetáculo à parte naquilo que estudo e busco seguir como profissão. Lembro de diversas ocasiões onde vibrei com seus comentários ao vivo, fosse na rádio pela manhã ou à frente da bancada do telejornal à noite. De certo, sempre comentei com colegas- alguns que estagiaram em sua redação- sobre suas análises tão justas e suas opiniões tão fortes.

Para minha geração, Ricardo Boechat foi e continuará sendo um ícone, um verdadeiro mito no que fazia. Muitas vezes, não concordava inteiramente com seus pontos de vista, mas sempre queria saber o que pensava, sempre o achei muito equilibrado e com uma capacidade de síntese absurda. Saber do cara era obrigatório para alguém que busca percorrer os mesmos passos e ser um profissional da informação tal como ele.

Escrever e falar do Boechat no passado é muito difícil, como já anteciparam os colegas da Rede Bandeirantes durante a cobertura do acidente fatal, afinal sua atividade ainda era muito intensa.

As manhãs na rádio nunca mais serão as mesmas. Aquela dobradinha extraordinária entre Boechat e Zé Simão será difícil de superar. As noites sem seus comentários audaciosos e cheios de razão nas matérias do Jornal da Band agora serão vazias.

Boechat merece um capítulo só dele na história do jornalismo brasileiro. Passou pelos maiores veículos de comunicação do país deixando um enorme número de admiradores e amigos seja onde fosse. Sofreu um duro golpe no início do século quando foi grampeado e perdeu o emprego na Globo. Mudou de casa, na Rede Bandeirantes, se reinventou e também mudou o modo de fazer jornalismo- ora por necessidade, ora por gosto.

Boechat devolveu o microfone ao povo especialmente na cidade de “São Sebastião do Rio de Janeiro”- como o mesmo gostava de chamar na rádio. Falava o que a população queria dizer. Enfrentava os grandes barões com muita coragem. Não teve medo de ir contra a linha editorial de onde trabalhava. E mais, Boechat nunca perdeu o respeito em uma análise sequer, sempre um cavalheiro.

 O choro é inevitável, especialmente quando olhamos para o momento de falta de representatividade em que vivemos. Boechat representou a voz do povo. É impressionante a admiração que circunda esse homem, até mesmo seus inimigos, pessoas que receberam duras críticas nos últimos tempos lamentaram a morte do careca.

Assim sendo, ao caro amigo que não conheci mas considero parte da minha família, gostaria de agradecer: Obrigado, Boechat.

Obrigado, Boechat, por explicar ao então deputado Jair Bolsonaro, em pleno ano de 2016, que torturadores não têm ideologia e não merecem enaltecimento em votações na “Casa do Povo”.

Obrigado, Boechat, por mandar Silas Malafaia procurar uma rola, até porque esse pastor não tem mais o que fazer além de ser “explorador da fé alheia”.

Obrigado, Boechat, por ligar para sua mãe ao vivo e perguntar se ela tinha recebido dinheiro das empreiteiras pois os deputados listados no escândalo tiveram  a cara de pau de negar tudo em rede nacional.

Obrigado também, dona Mercedez, pelo filho talentosíssimo que a senhora colocou no mundo e por sua relação tão bela com ele.

Obrigado, Boechat, por estabelecer um canal direto da rádio com a população, devolvendo assim o direito à comunicação para todos.

Obrigado, Boechat, por credibilizar mais o povo do que os engravatados no seu jornal.

Obrigado, Boechat, por todos ensinamentos, todas análises precisas e toda essa paixão pela busca da verdade que tanto nos falta, além de sua serenidade e leveza nas brincadeiras em momentos de tensão.

Suas aulas em formato de noticiário serão eternas, seu humor é único. Uma pena que a vida seja assim tão frágil, mas ao mesmo tempo é uma glória saber que dessa fragilidade surgem lendas como você. Brilha muito, sua missão será continuada, vamos “tocar o barco”.

Em nome de todos,

Obrigado, Ricardo Eugênio Boechat.

 

Daniel Yazbek Marques